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Livro em domínio público

Dom Casmurro

Machado de Assis, 1899

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.
Capítulo I O livro começa com um aborrecimento de trem, e é desse aborrecimento que sai o apelido que dá título a tudo. Ouvir este capítulo, na voz Sarah (ElevenLabs)

Um homem de sessenta e poucos anos manda construir, num subúrbio do Rio, uma cópia da casa em que foi criado, para ver se ali consegue atar as duas pontas da vida. Não consegue, e então escreve. O livro que ele escreve é este, e nele conta como amou a menina da casa ao lado, como casou com ela, e como passou a suspeitar que o filho dos dois era do amigo morto. Quem conta tudo é ele, e só ele, e é por aí que Dom Casmurro deixa de ser uma história de traição e vira outra coisa.

Quem é quem

Bentinho
Bento Santiago, o menino prometido ao seminário pela mãe. É ele quem escreve o livro, já velho, com o apelido de Dom Casmurro que os vizinhos lhe deram.
Capitú
A filha dos vizinhos, mais decidida e mais prática que Bentinho desde criança. Tudo o que se sabe dela chega pela pena de quem a acusa.
José Dias
O agregado da casa, que vive de ser útil e de superlativos. É uma frase dele que põe a promessa do seminário em movimento.
Escobar
O amigo do seminário, depois sócio e compadre. Morre no mar, e é depois da morte dele que a suspeita toma conta do livro.
Ezequiel
O filho de Bentinho e Capitú, em quem o pai passa a enxergar o rosto do amigo morto.
Glória
A mãe de Bentinho, que promete o filho à Igreja num momento de aflição e passa o resto da vida entre cumprir e adiar a promessa.

A história, em cinco movimentos

  1. O apelido e a razão de escrever

    Um rapaz do trem recita versos, o narrador cochila, e ganha por isso a alcunha de Dom Casmurro. Ele explica então por que resolveu reproduzir a casa da infância e encher as paredes de retratos: quer atar as duas pontas da vida.

    Capítulos I II

  2. A promessa e a denúncia

    A mãe prometeu o filho ao seminário. O agregado José Dias conta que os meninos da casa ao lado andam namorando, e a frase dele apressa o que estava adiado.

    Capítulos III V XIII

  3. A menina do lado

    Bentinho e Capitú crescem entre o muro e a sala. É aqui que ele descreve os olhos dela, e a descrição vira o verso mais repetido do livro brasileiro.

    Capítulos XVIII XXXI XXXII

  4. O seminário e o amigo

    No seminário aparece Escobar, que vira amigo, sócio e compadre. A amizade atravessa o casamento dos dois casais e chega até a casa da praia.

    Capítulos LV LVI LXII

  5. A suspeita, e o que fazer com ela

    Escobar morre afogado. No enterro, e depois nos gestos do filho, Bentinho passa a ver o que não consegue mais deixar de ver. O fim do livro não prova nada: entrega a conta ao leitor.

    Capítulos CXXIII CXXXI CXLV CXLVIII

O que os resumos erram

Não é um livro sobre se Capitú traiu

A pergunta que o livro faz é outra: dá para confiar em quem está contando? Bentinho escreve trinta anos depois, magoado, escolhendo o que entra e o que fica de fora. Quem resume o enredo como se a traição fosse fato dado está contando a versão dele, não o livro.

Capitú não confessa, e o livro não acusa

Não existe cena em que ela admita coisa alguma. O que existe é o marido interpretando olhares, semelhanças e gestos de uma criança. A dúvida é a matéria do livro, e desfazê-la em qualquer direção é estragar o que Machado montou.

O narrador diz o tempo todo que é parcial

Ele avisa que a memória é falha, que a casa nova é uma cópia da antiga, que o livro talvez saia cheio de falhas. Esses avisos não são modéstia de autor: são a instrução de leitura.

Dois trechos, do próprio livro

— Está na sala penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Capítulo XXXII O capítulo dos olhos de ressaca começa assim, numa cena doméstica, sem aviso nenhum de que vai virar o trecho mais citado do livro.
Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração?
Capítulo CXLVIII O último capítulo começa com uma pergunta do próprio narrador, e depois dela ainda vem o parágrafo que fecha o livro, não uma resposta sobre Capitú.

Duas palavras de 1899

agregado cap. V
Quem morava na casa de uma família sem ser da família nem ser criado, em troca de pequenos serviços e de lealdade. José Dias é o agregado da casa de Bentinho.
seminário cap. III
A escola onde se formavam padres. Ir para o seminário era, para um menino de família, um caminho decidido pelos adultos, e é o que a mãe de Bentinho prometeu.

Por que ainda se lê

Porque é o livro brasileiro que ensina a desconfiar de quem conta. Machado entrega a história toda nas mãos de um homem ferido e deixa o leitor decidir o que fazer com ela, e isso, escrito em 1899, continua sendo mais moderno que quase tudo o que se escreve hoje. Além disso, é curto, tem capítulos de meia página e uma ironia que funciona na primeira leitura: dá para ler em uma semana sem sofrer.

Os 148 capítulos

Estão neste acervo os 148 capítulos da primeira edição de 1899, um por página.

  1. I Do título
  2. II Do livro
  3. III A denuncia
  4. IV Um dever amarissimo!
  5. V O agregado
  6. VI Tio Cosme
  7. VII D. Glória
  8. VIII É tempo!
  9. IX A opera
  10. X Aceito a teoria
  11. XI A promessa
  12. XII Na varanda
  13. XIII Capitu
  14. XIV A inscripção
  15. XV Outra voz repentina
  16. XVI O administrador interino
  17. XVII Os vermes
  18. XVIII Um plano
  19. XIX Sem falta
  20. XX Mil padre-nossos e mil ave-marias
  21. XXI Prima Justina
  22. XXII Sensações alheias
  23. XXIII Prazo dado
  24. XXIV De mãe e de servo
  25. XXV No Passeio Público
  26. XXVI As leis são belas
  27. XXVII Ao portão
  28. XXVIII Na rua
  29. XXIX O imperador
  30. XXX O Santíssimo
  31. XXXI As curiosidades de Capitu
  32. XXXII Olhos de ressaca
  33. XXXIII O penteado
  34. XXXIV Sou homem!
  35. XXXV O protonotário apostolico
  36. XXXVI Ideia sem pernas e ideia sem braços
  37. XXXVII A alma é cheia de mistérios
  38. XXXVIII Que susto, meu Deus!
  39. XXXIX A vocação
  40. XL Uma egua
  41. XLI A audiência secreta
  42. XLII Capitu reflectindo
  43. XLIII Você tem medo?
  44. XLIV O primeiro flho
  45. XLV Abane a cabeça, leitor
  46. XLVI As jiazes
  47. XLVII A senhora saiu
  48. XLVIII Juramento do poço
  49. XLIX Uma vela aos sábados
  50. L Um meio termo
  51. LI Entre luz e fusco
  52. LII O velho Pádua
  53. LIII A caminho!
  54. LIV Panegirieo de Santa Monica
  55. LV Um soneto
  56. LVI Um seminarista
  57. LVII De reparação
  58. LVIII O tratado
  59. LIX Convivas de boa memórias
  60. LX Querido opusculo
  61. LXI A vaca de Homero
  62. LXII Uma ponta de lago
  63. LXIII Metades de um sonho
  64. LXIV Uma ideia e um escrúpulo
  65. LXV A dissimulação
  66. LXVI Intimidade
  67. LXVII Um pecado
  68. LXVIII Adiemos a virtude
  69. LXIX A missa
  70. LXX Depois da missa
  71. LXXI Visila de Escobar
  72. LXXII Uma reforma dramatica
  73. LXXIII O contra-regra
  74. LXXIV A presilha
  75. LXXV O desespero
  76. LXXVI Explicação
  77. LXXVII Prazer das dóres velhas
  78. LXXVIII Segredo por segredo
  79. LXXIX Vamos ao capítulo
  80. LXXX Venhamos ao capítulo
  81. LXXXI Uma palavra
  82. LXXXII O canapé
  83. LXXXIII O retrato
  84. LXXXIV Chamado
  85. LXXXV O defuncto
  86. LXXXVI Amai, rapazes
  87. LXXXVII A sege
  88. LXXXVIII Um pretexto honesto
  89. LXXXIX A recusa
  90. XC A polemica
  91. XCI Achado que consola
  92. XCII O diabo não é tão feio como se pinta.
  93. XCIII Um amigo por um defuncto
  94. XCIV Idéias arilhmeticas
  95. XCV O papa
  96. XCVI Um substituto
  97. XCVII A saída
  98. XCVIII Cinco anos
  99. XCIX O filho é a cara do pai
  100. C « Tu serás feliz, Bentinho! »
  101. CI No céu
  102. CII De casada
  103. CIII A fclicitade tem boa alma
  104. CIV As piramides
  105. CV Os braços
  106. CVI Dez libras esterlinas
  107. CVII Ciúmes do mar
  108. CVIII Um filho
  109. CIX Um filho único
  110. CX Rasgos da infância
  111. CXI Contado depressa
  112. CXII As imitações de Ezequiel
  113. CXIII Embargos de terceiro
  114. CXIV Em que se explica o explicado
  115. CXV Dúvidas sobre dúvidas
  116. CXVI Filho do homem
  117. CXVII Amigos próximos
  118. CXVIII A mão de Sancha
  119. CXIX Não faça isso, querida
  120. CXX Os autos
  121. CXXI A catástrofe
  122. CXXII O enterro
  123. CXXIII Olhos de ressaca
  124. CXXIV O discurso
  125. CXXV Uma comparação
  126. CXXVI Scismando
  127. CXXVII O barbeiro
  128. CXXVIII Punhado de sucessos
  129. CXXIX A D. Sancha
  130. CXXX Um dia
  131. CXXXI Anterior ao anterior
  132. CXXXII O debuxo e o colorido
  133. CXXXIII Uma ideia
  134. CXXXIV O dia de sábado
  135. CXXXV Otelo
  136. CXXXVI A chicara de café
  137. CXXXVII Segundo impulso
  138. CXXXVIII Capitu que entra
  139. CXXXIX A fotografia
  140. CXL Volta da igreja
  141. CXLI A solução
  142. CXLII Uma santa
  143. CXLIII O último superlativo
  144. CXLIV Uma pergunta tardia
  145. CXLV O regresso
  146. CXLVI Não houve lepra
  147. CXLVII A exposição retrospectiva
  148. CXLVIII É bem, e o resto?