Um homem de sessenta e poucos anos manda construir, num subúrbio do Rio, uma cópia da casa em que foi criado, para ver se ali consegue atar as duas pontas da vida. Não consegue, e então escreve. O livro que ele escreve é este, e nele conta como amou a menina da casa ao lado, como casou com ela, e como passou a suspeitar que o filho dos dois era do amigo morto. Quem conta tudo é ele, e só ele, e é por aí que Dom Casmurro deixa de ser uma história de traição e vira outra coisa.
Quem é quem
Bentinho
Bento Santiago, o menino prometido ao seminário pela mãe. É ele quem escreve o livro, já velho, com o apelido de Dom Casmurro que os vizinhos lhe deram.
Capitú
A filha dos vizinhos, mais decidida e mais prática que Bentinho desde criança. Tudo o que se sabe dela chega pela pena de quem a acusa.
José Dias
O agregado da casa, que vive de ser útil e de superlativos. É uma frase dele que põe a promessa do seminário em movimento.
Escobar
O amigo do seminário, depois sócio e compadre. Morre no mar, e é depois da morte dele que a suspeita toma conta do livro.
Ezequiel
O filho de Bentinho e Capitú, em quem o pai passa a enxergar o rosto do amigo morto.
Glória
A mãe de Bentinho, que promete o filho à Igreja num momento de aflição e passa o resto da vida entre cumprir e adiar a promessa.
A história, em cinco movimentos
O apelido e a razão de escrever
Um rapaz do trem recita versos, o narrador cochila, e ganha por isso a alcunha de Dom Casmurro. Ele explica então por que resolveu reproduzir a casa da infância e encher as paredes de retratos: quer atar as duas pontas da vida.
A mãe prometeu o filho ao seminário. O agregado José Dias conta que os meninos da casa ao lado andam namorando, e a frase dele apressa o que estava adiado.
Escobar morre afogado. No enterro, e depois nos gestos do filho, Bentinho passa a ver o que não consegue mais deixar de ver. O fim do livro não prova nada: entrega a conta ao leitor.
A pergunta que o livro faz é outra: dá para confiar em quem está contando? Bentinho escreve trinta anos depois, magoado, escolhendo o que entra e o que fica de fora. Quem resume o enredo como se a traição fosse fato dado está contando a versão dele, não o livro.
Capitú não confessa, e o livro não acusa
Não existe cena em que ela admita coisa alguma. O que existe é o marido interpretando olhares, semelhanças e gestos de uma criança. A dúvida é a matéria do livro, e desfazê-la em qualquer direção é estragar o que Machado montou.
O narrador diz o tempo todo que é parcial
Ele avisa que a memória é falha, que a casa nova é uma cópia da antiga, que o livro talvez saia cheio de falhas. Esses avisos não são modéstia de autor: são a instrução de leitura.
Dois trechos, do próprio livro
— Está na sala penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Capítulo XXXII O capítulo dos olhos de ressaca começa assim, numa cena doméstica, sem aviso nenhum de que vai virar o trecho mais citado do livro.
Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração?
Capítulo CXLVIII O último capítulo começa com uma pergunta do próprio narrador, e depois dela ainda vem o parágrafo que fecha o livro, não uma resposta sobre Capitú.
Quem morava na casa de uma família sem ser da família nem ser criado, em troca de pequenos serviços e de lealdade. José Dias é o agregado da casa de Bentinho.
A escola onde se formavam padres. Ir para o seminário era, para um menino de família, um caminho decidido pelos adultos, e é o que a mãe de Bentinho prometeu.
Por que ainda se lê
Porque é o livro brasileiro que ensina a desconfiar de quem conta. Machado entrega a história toda nas mãos de um homem ferido e deixa o leitor decidir o que fazer com ela, e isso, escrito em 1899, continua sendo mais moderno que quase tudo o que se escreve hoje. Além disso, é curto, tem capítulos de meia página e uma ironia que funciona na primeira leitura: dá para ler em uma semana sem sofrer.
Os 148 capítulos
Estão neste acervo os 148 capítulos da primeira edição de 1899, um por página.
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