CXXXII
O debuxo e o colorido
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase, até que a família pendura o quadro na parede, em memória do que foi e já não pode ser. Aqui podia ser e era. O costume valeu muito contra o efeito da mudança; mas a mudança fez-se, não á maneira de teatro, fez-se como a manhã que aponta vagarosa, primeiro que se possa ler uma carta, depois lê-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janelas; a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. Li a carta, mal a princípio e não toda, depois fui tendo melhor. Fugia-lhe, é certo, metia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me, não abria as vidraças, chegava a fe char os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, a letra era clara e a noticia clarissima.
Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo á mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me á noite a benção do costume. Todas essas acções eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazel-o a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matal-os a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todas os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a creaturinba que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro.
O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios, não se notará aqui, por ser tão miudo e repetido, e já tão tarde que não se poderá dizel-o sem falha nem canceira. Mas o principal irá. E o principal é que os nossos temporaes eram açora continuos e terríveis. Antes de descoberta aquela má terra da verdade, tivemos outros de pouca dura; não tardava que o céu se fizesse azul, o sol claro e o mar chão, por onde abriamos novamente as velas que nos levavam ás ilhas e costas mais belas do universo, até que outro pé de vento desbaratava tudo, e nós, postos a capa, esperavamos outra bonança, que não era tardia nem dubia, antes total, próxima e firme.
Releva-me estas metaforas; cheiram ao mar e á maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. Assim, posto sempre fosse homem de terra, conto aquela parte da minha vida, como um marujo contaria o seu naufragio.
Já entre nós só faltava dizer a palavra última; nós a liamos, porém, nos olhos um do outro, vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. Capitu propoz metel-o em um colégio, donde só viesse aos sábados; custou muito ao menino aceitar esta situação.
— Quero ir com papai! Papai ha de ir comigo! bradava ele.
Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã, uma segunda feira. Era no antigo largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a pé, pela mão, como levará o ataúde do outro. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo, se voltaria para casa, e quando, e se eu iria vel-o...
— Vou.
— Papai não vai!
— Vou sim.
— Jura, papai!
— Pois sim.
— Papai não diz que jura.
— Pois juro.
E lá o levei e deixei. A ausência temp atalhou o mal, e toda a arte fina de Capitu para fazel-o atenuar, ao menos, foi como se não fosse; eu sentia-me cada vez peor. A mesma situação nova agravou a minha paixão. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista; mas a volta dele, ao fim das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava, ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança, era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. Até a voz; dentro de pouco, já me parecia a mesma. Aos sábados, buscava não jantar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo; mas não escapava ao domingo, no gabinete, quando eu me achava entre jornaes e autos. Ezequiel entrava turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor, porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar, tanto a ela como aos outros. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral, cuidava de me não fazer encontradiço com ele, ou só o menos que pudesse; ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto.