Net Love Net Love
Seções

Terapias caseiras - Eduardo Loureiro Jr

Tamanho
905 palavras

Esta leitura ainda não passou por conferência. O texto aparece como está no acervo.


Cada um de nós possui certos defeitos que nos garantiriam um lugar no presídio, no hospício ou dentro de casa mesmo, num quarto isolado.

Eu, por exemplo, sofro de timidez excessiva, intolerância aos outros e tendência depressiva. Sei que é caso para psicólogo, mas psicólogos comigo não funcionam. Não sei se porque sou tímido demais pra contar minhas coisas, se porque não tolero psicólogos ou se porque fico deprimido com o custo-benefício da terapia psicológica.

Acabei desenvolvendo, meio sem querer, umas terapias caseiras. Para a timidez, tocar violão. Para a intolerância, estudar astrologia. Para a depressão, escrever.

Tenho o preconceito de que é impossível alguém aprender a tocar violão se não for tímido. Afinal, como é que um extrovertido vai poder se dedicar horas e horas, sozinho, à repetição de dedilhados e acordes necessária ao correto aprendizado do instrumento, quando tem que falar outras tantas horas ao telefone, ou receber amigos, ou comparecer a festas? Os extrovertidos que tocam violão são motivo de tão grande mistério para mim quanto para algumas pessoas é grande o mistério de haver atores tímidos. Tocar violão amenizou minha timidez, não sei exatamente por que motivos, mas talvez porque as músicas que eu tocava serviam de subsituto para as coisas que minha timidez não deixava eu dizer. Logo no começo, quando minha timidez ainda não havia sido diminuída, eu costumava falar com todo mundo apenas através de músicas, e suas letras. Se alguém me perguntava, Olá, como vai?, eu respondia, Tudo bem, eu vou indo, e você? Quando queriam saber se eu já havia me recuperado de uma paixão, eu dizia, Quando passo em frente à casa dela, eu me lembro do sabor que tem o beijo dela. Foi quando minha timidez percebeu que, por culpa dela, eu estava me transformando num sujeito ridículo, e resolveu ir embora pra só aparecer de vez em quando: por exemplo, quando uma mulher bonita sorri pra mim — o que imediatamente me traz a timidez de volta.

Mas a vida é traiçoeira: resolve um problema só pra criar outro. Menos tímido, passei a conhecer e conversar com mais gente. Apareceu então um outro grande defeito meu: a intolerância. É realmente muito doentio ter aversão a alguém que tem uma religião diferente, um partido político diferente, um gosto por roupas diferente ou até mesmo uma cor preferida diferente, mas tenho que admitir que eu não considerava normal uma pessoa que gostasse de vermelho. Foi então que entrou a astrologia, que pra muitos serve apenas como maneira de prever o futuro — tudo bem, já não tenho aversão a essa gente. Com a astrologia, descobri que há 12 tipos básicos de gente, a começar pelo signo solar. Se combinarmos com o ascendente, são 144 tipos. Juntemos a lua, e serão 1728. E ainda podemos acrescentar os demais planetas, casas e aspectos planetares para povoarmos nossa imaginação de centenas de milhares de tipos de criaturas. Eu que pensava que só havia dois tipos de pessoas — as certas, entre as quais eu me incluía, e as erradas — descobri que entre o preto e o branco existe tanta cor que ou a gente tolera ou então perde a sanidade. Desde então, não só respeito tudo que é diferença, de sexo, de raça, de cabelo, de trejeito, como sempre me levanto e reclamo sempre que vejo alguma diferença sendo desrespeitada.

E a vida de novo — traíra, traíra — me desconcerta. Vendo o mundo assim tão cheio de gente, tudo diferente, me veio a impressão, depois a certeza, de que nenhum consenso é possível: a alegria de um é a tristeza do outro, o excesso de um é a carência do outro. Os problemas que o mundo tinha, e tem, não seriam resolvidos a partir dessa multiplicidade de gentes. Se duas cabeças pensam melhor do que uma, 1728 cabeças pesam mais do que todas. Quando se vive num mundo que não presta, a gente sobrevive de esperança. Mas quando a esperança se revela uma ilusão, para que viver? Depressão das boas! Então a escrita, que sempre tinha sido uma obrigação de escola, revelou-se uma salvação. E não pensem que porque, escrevendo, eu passaria a mais pessoas uma mensagem de que o mundo seria melhor, bastando que a gente, ou as gentes tentassem fazê-lo melhor. Se acreditei nisso um dia, tenho até vergonha de confessar tamanha ingenuidade. Escrever é uma forma de gritar, mas sem fazer barulho:

"Vocês são doidos, é? Não estão vendo o rumo terrível de tudo que existe? E que a responsabilidade é de vocês também? Pois então serei louco também, e não verei o mal que em tudo existe, e que começa em mim. Mas serei mais louco que vocês, e ainda mais cego, e sobretudo mais irresponsável. Quando estiver alegre, sairei por aí chorando lágrimas de gente e de crocodilo; e quando estiver triste, queimarei índios com fogos de artifício. Quando for rico, farei jejuns a pão e água, e pedirei esmola nos sinais; e quando for pobre, organizarei banquetes e farei empréstimos para não pagar as contas. Darei cototo quando quiser estender a mão, e acenarei quando quiser chutar a bunda. Quando escrever, e vocês lerem uma coisa, eu estarei na verdade dizendo outra; e quando pensarem que uso de ironia, será a coisa em si que estarei dizendo."

Eduardo Loureiro Jr

Mestre-teia d'O Pátio e autor dos livros infantis "A Concha e a Borboleta" e "Redonda"

Crônica do Dia
http://www.patio.com.br/cronica/

09.dezembro.2002