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Dos contos de fadas - Débora Bottcher


Em dezembro de 94 a Editora Abril lançou, para venda ao consumidor, vídeos de Walt Disney — antes, apenas as locadoras tinham acesso a esse material e quando resolviam vender, já estavam por demais utilizados, as imagens embaçadas e cheias de chuviscos.

O primeiro da série foi Branca de Neve e os Sete Anões. Foi ele também o primeiro longa-metragem em desenho desse estúdio — e não tenho certeza, mas acho que essa distribuição ao varejo marcava os 100 anos de sua criação.

Eu tinha vinte e sete anos e o sonho de ter uma filha: tratei de comprá-lo.

A partir daí, novos vídeos foram chegando ao mercado — Pinóchio (o predileto do meu pai), A Bela e a Fera, Alice no País das Maravilhas, Alladin, Mogli (o preferido de Sharon Stone), Peter Pan, os Dálmatas, A Dama e o Vagabundo: todos os contos de fadas que Walt Disney imortalizou em traços perfeitos — as mais belas princesas, os mais encantadores príncipes, as mais maldosas madrastas, os personagens mais sedutores das estórias infantis.

Eu fui comprando um a um, à medida que eram disponibilizados.

Nessa época, eu andava fascinada com o mundo das fábulas e fui fazer uma especialização em literatura infantil. Descobri que muitas das estórias 'inventadas' para os pequenos tinham um fundo de verdade e nem sempre eram apenas para crianças.

Peter Pan, por exemplo, de James Matthew Barrie, é tido como uma tentativa de chamar os adultos a guardarem sua metade criança sempre intacta, a fim de poderem conservar a inocência dessa época em algum lugar de si mesmos. João e Maria, de Jacob e Wilhelm Grimm (os Irmãos Grimm), era considerado um conto mórbido e aterrorizante por atrelar perversão à imagem das madrastas — e num tempo em que muitas mães morriam no parto, isso podia efetivamente causar desequilíbrio emocional em seus leitores. Branca de Neve carrega o peso de ser uma história verdadeira sobre incesto.

Walt Disney também foi muito criticado por, eventualmente, transformar contos tristes como A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, numa produção gloriosa e feliz, roubando sua essência. Não o culpo: sendo contos de fadas, nada mais natural que lhes dar finais felizes para sempre.

Como se vê, há um universo de segredos por trás desse mundo mágico... E fato é que me deixei envolver por ele, sendo que a cada novo lançamento da Abril, estava eu à caça, nas Lojas de Departamentos.

Mudei muitas vezes de casa e carreguei essas fitas (17) comigo, a cada uma das minhas andanças.

Esses dias, estava eu sentada na sala lendo, quando, sem qualquer razão, levantei os olhos e as focalizei, na parte de baixo do rack. Estão ali, lado a lado, há muito tempo sem que ninguém as assista. Num ímpeto, coloquei Branca de Neve no vídeo e liguei a TV. Só consegui prender-me por quinze minutos.

Descobri que o tempo passou e elas perderam muito de seu significado. O sonho de ter uma filha, ainda não realizado, vai ficando distante. Meus sobrinhos, que se divertiam com elas, estão focados nas novas tecnologias. Os netos de meu marido talvez nem venham a se interessar — que já nasceram na era do computador.

Conclusão: perdi o fio dessa meada de fantasia... E percebo que há que se estar atento para não deixar que nossos sonhos se transformem em miragens enfileiradas nas estantes de nossos sótãos, ocupando espaço na memória do irrealizável e pegando pó a envelhecer junto às teias de nossos projetos despedaçados.

Débora Bottcher
http://users.nvcnet.com.br/cristais/blogger.html

Crônica do Dia
http://www.patio.com.br/cronica/

04.dezembro.2002

De onde veio esta página. Do arquivo index__url_canais_colunistas_005.html.html, recuperado das capturas do Internet Archive. O texto acima é o mesmo, palavra por palavra: só a tipografia mudou.

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