Hermes, o que atravessa novo
Hermes é o mensageiro, mas mensageiro é pouco: ele é o deus de tudo o que atravessa fronteira. Leva recados entre os deuses e os homens, conduz as almas até o reino de Hades, protege o viajante, o comerciante e, com a mesma naturalidade, o ladrão.
No primeiro dia de vida saiu do berço, roubou o gado de Apolo, apagou o rastro amarrando galhos nos pés dos bois e voltou a dormir fingindo inocência. Quando foi descoberto, inventou a lira com um casco de tartaruga e a ofereceu ao irmão como pagamento. Saiu do episódio com um aliado em vez de um inimigo.
As sandálias aladas e o caduceu, o bastão com duas serpentes, são dele. O caduceu aparece hoje, por engano antigo, em consultório e em farmácia: o bastão da medicina é outro, o de Asclépio, que tem uma serpente só. O erro já está tão espalhado que não há como consertar.
Do nome dele vem hermético, que era como se chamava o saber fechado dos alquimistas, e vem hermenêutica, a arte de interpretar um texto. Fazem sentido as duas: interpretar é atravessar de uma língua para outra, e atravessar é o ofício dele.
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