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Frases da casa da avó, do café coado ao portão que rangia

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371 palavras

A casa dos avós tem um cheiro, um barulho de portão e uma cozinha que ninguém esquece. Estas vinte frases passeiam por ela, do café coado à despedida na calçada, para quem ainda chega lá de visita e para quem guarda a casa só na lembrança.

O café passado no coador de pano perfumava a casa inteira antes de alguém dizer bom dia.

Abri o pote de sorvete no congelador da minha avó e, como sempre, era feijão.

Minha avó guardava os biscoitos no alto do armário e fingia não ver a gente na ponta dos pés.

O bolo de fubá esfriava na janela enquanto minha avó ajeitava as cadeiras para a visita.

O rádio em cima da geladeira tocava moda antiga enquanto meu avô descascava laranja numa fita só.

Meu avô conversava com a couve no canteiro e jurava que uma bronca bem dada fazia a verdura crescer.

A gente fugia pelo quintal do galo garnizé, que se achava o dono da casa.

O controle da televisão vivia num saquinho plástico, guardado pelo meu avô como se fosse joia.

Bastava sentar no sofá para a avó cobrir nossos pés com duas mantas, fizesse frio ou calor.

A água do filtro de barro tinha um gosto que nenhuma geladeira conseguiu copiar.

O colchão de molas estalava alto e entregava quem tentava levantar sem acordar a casa.

A gaveta do criado-mudo do meu avô guardava balas de hortelã grudadas no papel e tesouros que só ele entendia.

Abrir o guarda-roupa de madeira e sentir o cheiro de alfazema era chegar de verdade.

A lata de biscoito que guardava os carretéis de linha nunca guardou biscoito nenhum.

O portão rangia antes da campainha, e o rangido já era meio abraço.

Mal passávamos da porta e minha avó puxava uma cadeira para perto da dela.

Ao toque da campainha, meu avô gritava da poltrona que a chave estava embaixo do vaso.

A visita terminava com potes de comida para levar e a ordem da avó de devolver as vasilhas.

Na despedida, meu avô punha uma nota amassada no meu bolso e piscava como quem combina um segredo.

O aceno na calçada durava até o carro dobrar a esquina, e às vezes dura até hoje.