Anjos na música, do canto gregoriano ao Messias de Händel
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Na compreensão litúrgica cristã, há um momento da missa em que os fiéis unem seu canto ao dos anjos. É o Sanctus, o fim do prefácio da oração eucarística, que descreve os fiéis se unindo aos anjos que louvam a Deus com essas palavras. A primeira parte é de Isaías 6,3, da visão dos serafins de seis asas. Uma imagem parecida aparece em Apocalipse 4,8, e na liturgia judaica o mesmo versículo é dito no Kedushá. A forma mais antiga do Sanctus tinha só a parte de Isaías. O Benedictus, de Mateus 21,9, aparece em formas posteriores, ligadas à tradição de Antioquia.
Outro canto nasce de Lucas. O Gloria in excelsis Deo, também chamado Hino dos Anjos, começa com as palavras que os anjos cantaram aos pastores no relato do nascimento de Jesus, em Lucas 2,14. Outros versos foram acrescentados bem cedo, e o texto se parece com os "salmos privados" dos séculos II e III. No século IV, já fazia parte das orações da manhã, e no rito bizantino continua no Orthros. Uma tradição registrada no Liber Pontificalis atribui ao papa Telésforo, no século II, o uso do hino na missa de Natal. Os estudiosos catalogaram mais de duzentas melodias medievais para ele. O canto natalino "Angels We Have Heard on High" usa o início do Gloria como refrão.
Um terceiro exemplo vem do rito dos mortos. Na antífona In paradisum, em latim, pede-se que os anjos conduzam o falecido ao paraíso e que coros de anjos o recebam. Na missa de exéquias, ela costuma acompanhar a saída do corpo da igreja, em procissão. A melodia gregoriana é no modo mixolídio.
Passando ao oratório: o Messias, de Händel, foi composto em 24 dias, de 22 de agosto a 14 de setembro de 1741. O texto, escolhido por Charles Jennens, vem da Bíblia do rei Jaime e do Saltério de Coverdale. A estreia foi em Dublin, em 13 de abril de 1742. A anunciação aos pastores é a única cena tirada dos Evangelhos, e vem em palavras de Lucas. Ela leva ao coro Glory to God, em que Händel usa pela primeira vez as trombetas. Na Parte II, o coro Let all the angels of God worship him canta a recepção de Cristo no céu.
A festa de São Miguel, em 29 de setembro, também rendeu música. Nos tempos de Bach, a festa de Miguel e de todos os anjos era celebrada nas igrejas luteranas com um culto solene, para o qual ele compôs várias cantatas, como a BWV 19, de 1726.
Nesses exemplos, a música retoma textos bíblicos e tradições litúrgicas, e dá a eles melodia.
Para conferir
- Wikipédia em inglês, verbete Sanctus, consultado em 21/10/2026: Sanctus como fim do prefácio, Isaías 6,3, Apocalipse 4,8, Kedushá, forma mais antiga sem o Benedictus (Mateus 21,9).
- Wikipédia em inglês, verbete Gloria in excelsis Deo, consultado em 21/10/2026: Hino dos Anjos, Lucas 2,14, psalmi idiotici, Orthros bizantino, atribuição a Telésforo no Liber Pontificalis (tradição, não fato estabelecido), mais de duzentas melodias medievais, carol Angels We Have Heard on High.
- Wikipédia em inglês, verbete In paradisum, consultado em 21/10/2026: Antífona In paradisum, uso em procissão na saída do corpo da igreja, modo mixolídio.
- Wikipédia em inglês, verbete Messiah (Handel), consultado em 21/10/2026: Composição de 22/08 a 14/09/1741; texto de Jennens a partir da Bíblia do rei Jaime e do Saltério de Coverdale; estreia em Dublin em 13/04/1742; cena dos pastores; trombetas em Glory to God; Let all the angels of God worship him.
- Wikipédia em inglês, verbete Michael (archangel), consultado em 21/10/2026: Festa de Miguel e de todos os anjos em 29 de setembro nas igrejas luteranas e cantatas de Bach, entre elas a BWV 19 (1726).
- Bíblia Douay-Rheims / Vulgata Clementina (domínio público, ed. 1899): Isaías 6,3; Apocalipse 4,8; Mateus 21,9; Lucas 2,14; Hebreus 1,6.







