A janela que eu queria
Querida prima,
Na sua última visita, eu disse que queria uma cozinha igual à da sua amiga. Depois falei do emprego de um conhecido seu, das viagens do vizinho, da disposição de uma mulher que nem conheço direito. Você perguntou onde eu tinha vontade de morar. Respondi descrevendo a casa de outra pessoa.
A pergunta ficou comigo. Percebi que vinha escolhendo meus desejos como quem monta uma casa com janelas tiradas de casas diferentes. Uma parecia bonita por fora, outra recebia sol, outra dava para uma rua movimentada. Eu juntava tudo sem pensar no lugar onde passaria meus dias.
Ontem visitei um apartamento. A cozinha era estreita e os azulejos estavam gastos. Quase descartei a ideia antes de abrir a janela do quarto. Dava para uma árvore. Fiquei ali um tempo, ouvindo as folhas, até o corretor perguntar se eu precisava ver alguma coisa mais.
Não decidi me mudar. O aluguel ainda precisa caber nas contas, e falta conhecer a rua à noite. Mas, pela primeira vez em meses, consegui dizer o que me agradava sem citar a vida de ninguém.
Continuo querendo saber das suas novidades. Só queria desfazer aquela impressão de que cada notícia sua me obriga a apresentar uma equivalente. Se você perguntar por mim hoje, tenho uma visita de apartamento para contar. E uma árvore que eu gostaria de ver de manhã.
Um beijo.



