A barra do casaco
Mãe,
O frio voltou e tirei seu casaco do alto do armário. Eu o trouxe para casa depois da sua morte, junto com coisas que na época não consegui escolher direito. Só agora reparei que a barra está presa com linha de outra cor. Você deve ter usado a que tinha à mão.
Passei o dedo pelos pontos. Alguns são compridos, outros quase desaparecem no tecido. Lembrei de você costurando diante da televisão, levantando os olhos quando alguém entrava na sala. Eu costumava aparecer com alguma pergunta que podia esperar. Você mantinha a agulha suspensa até eu terminar.
Queria ter uma pergunta dessas agora. Uma bobagem sobre o horário da feira, o nome de uma vizinha, qualquer coisa que fizesse você olhar para mim daquele jeito distraído e atento.
O casaco ficou sobre a cama a manhã inteira. Pensei em levá-lo à costureira para acertar a barra. Depois me incomodou a ideia de perder seus pontos. Também me incomodou imaginar que, daqui em diante, toda decisão sobre uma roupa teria de ser uma decisão enorme.
Vou usá-lo como está neste inverno. Se a linha soltar, vejo o que fazer. Hoje enfiei os braços nas mangas e fui buscar pão. Uma delas ficou um pouco comprida. Dobrei o punho na fila, senti sua falta e continuei esperando minha vez.
Com saudade, sua filha.



