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XXIV

De mãe e de servo

Dom Casmurro, de Machado de Assis

José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pagem; fez-se pagem, ia comigo á rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha prosodia. Aos oito anos os meus pluraes careciam, alguma vez, da desinência exacta, ele a corrigia, meio serio para dar autoridade á licção, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada, ele assistia ás licções, fazia reflexões eclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre: «Não e verdade que o nosso joven amigo caminha depressa?» Chamava-me «um prodigio»; dizia a minha mãe ter conhecido outr'ora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possuía já certo número de qualidades moraes sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.