XLVII
A senhora saiu
Dom Casmurro, de Machado de Assis
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— Está bom, acabou, disse eu finalmente; mas, explique-me só uma coisa, porque é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar?
— Não foi por nada, respondeu Capitu, depois de alguma hesitação... Para que bolir nisso?
— Diga sempre. Foi por causa do seminário?
— Foi; ouvi dizer que lá dão pancada... Não ? Eu também não creio.
A explicação agradou-me; não tinha outra. Se, como penso, Capitu não disse a verdade, força é reconhecer que não podia dizel-a, e a mentira é dessas creadas que se dão pressa em responder ás visitas que « a senhora saiu », quando a senhora não quer falar a ninguém. Ha nessa cumplicidade um gosto particular; o pecado em comum eguala por instantes a condição das pessoas, não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas, e as costas com que elas descem... A verdade não saiu, ficou em casa, no coração de Capitu, cochilando o seu arrependimento. E eu não desci triste nem zangado; achei a creada galante, apetecivel, melhor que a ama.
As andorinhas vinham agora em sentido contrário, ou não seriam as mesmas. Nós é que éramos os mesmos ; ali ficámos somando as nossas ilusões, os nossos temores, começando já a somar as nossas saudades.