XLIV
O primeiro flho
Dom Casmurro, de Machado de Assis
— Dê cá, deixe escrever uma coisa.
Capitu olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias, obliquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me :
— Diga-me uma coisa, mas fale verdade, não quero disfarce; ha de responder com o coração na mão.
— Que é? Diga.
— Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é que escolhia?
— Eu?
Fez-me signal que sim.
— Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.
— Pois, sim, mas eu pergunto. Suponha você que está no seminário e recebe a noticia de que eu vou morrer...
— Não diga isso!
— ... Ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe não quizer que você venha, diga-me, você vem?
— Venho.
— Contra a ordem de sua mãe?
— Contra a ordem de mamãe.
— Você deixa seminário, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?
— Não fale em morrer, Capitu!
Capitu teve um risinho descorado e incrédulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão; inclinei-me e li : mentiroso.
Era tão extranho tudo aquilo, que não achei resposta. Não atinava com a razão do escripto, como não atinava com a do falado. Se me acudisse ali uma injuria grande ou pequena, é possível que a escrevesse também, com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir ou ler[sic]. Quem, se éramos sós? D. Fortunata chegára uma vez á porta da casa, mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa; ninguém mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. Nada mais, ou somente este fenômeno curioso, que o nome escripto por ela, não só me espiava do chão com gesto escarninho, mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma ideia ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia aceital-a sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia a secreta esperança de vel-a atirar-se a mim lavada em lágrimas. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer :
— Padre é bom, não ha duvida; melhor que padre só conego, por causa das meias roxas. O roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor conego.
— Mas não se pode ser conego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.
— Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu não quero perder é a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido á moda, saia balão e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. A igreja ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.
— Ou Candelaria.
— Candelaria também. Qualquer serve, comtanto que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um figurão. Muita gente ha de perguntar: « Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito? »— « Aquela é D. Capitolina, uma moça que morou na rua de Matacavalos... »
— Que morou? Você vai mudar-se?
— Quem sabe onde é que hade morar amanhã? disse ela com um tom leve do melancolia; mas nando logo ao sarcasmo : E você no altar, metido na alva, com a capa de ouro por cima, cantando... Pater noster...
Ah! como eu sinto não ser um poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela, a graça de um e a promptidão de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma, até ao meu golpe final que foi este :
— Pois, sim, Capitu, você ouvirá a minha missa nova, mas com uma condição.
Ao que ela respondeu :
— Vossa Reverendissima pode falar.
— Promete uma coisa?
— Que é?
— Diga se promete.
— Não sabendo o que é, não prometo.
— A falar verdade são duas coisas, continuei eu, por haver-me acudido outra ideia.
— Duas? Diga quais são.
— A primeira é que só se ha de confessar comigo, para eu lhe dar a penitência e a absolvição. A segunda é que...
— A primeira está prometida, disse ela vendo-me hesitar, e acrescentou que esperava a segunda.
Palavra que me custou, e antes não me chegasse a sair da boca; não ouviria o que ouvi, e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incredulos.
— A segunda... sim... é que... Promete-me que seja eu o padre que case você?
— Que me case? disse ela um tanto comovida.
Logo depois fez descair os lábios, e abanou a cabeça.
— Não, Bentinho, disse, seria esperar muito tempo; você não vai ser padre já amanhã, leva muitos anos... Olhe, prometo outra coisa; prometo que ha de baptisar o meu primeiro filho.