XIX
Sem falta
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, não tanto, porém, que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. Formulei o pedido de cabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom delas, entre seco e benevolo. Na chacara, antes de entrar em casa, repeti-as comigo, depois em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam ás recomendações de Capitu: « Preciso falar-lhe, sem falta, amanhã; escolha o logar e diga-me. » Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavras sem falta, como para sublinhal-as. Repeti-as ainda, e então achei-as secas de mais, quase rispidas, e, francamente, improprias de um creançola para um homem maduro. Cuidei de escolher outras, e parei.
Afinal disse comigo que as palavras podiam servir, tudo era dizel-as em tom que não ofendesse. E a prova é que, repetindo-as novamente, saíram-me quase suplices. Bastava não carregar tanto, nem adoçar muito, um meio termo. «E Capitu tem razão, pensei, a casa é minha, ele é um simples agregado.... Geitoso é, pode muito bem trabalhar por mim, e desfazer o plano de mamãe.»