XI
A promessa
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Tao depressa vi desaparecer o agregado no corredor, deixei o esconderijo, e corri á varanda do fundo. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram provavelmente os seus projectos eclesiasticos, e a ocasião destes é a que vou dizer, por ser já então história velha; datava de dezeseis anos.
Os projectos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse varão, metel-o na igreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pai. nem anles, nem depois de me dar á luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a escola, mas enviuvou antes disso. Viúva, sentiu o terror de separar-se de mim; mas era tão devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos separassemos o mais tarde possível, fez-me aprender em casa primeiras letras, latim e doutrina, por aquele padre Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar ás noites.
Prazos largos são faceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo. Entretanto, ia-me afeiçoando á ideia da igreja; brincos de creança, livros devotos, imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia para o altar. Quando íamos á missa, dizia-me sempre que era para aprender a ser padre, e que reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de missa, — um tanto ás escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. Arranjavamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e alteravamos o ritual, no sentido do dividirmos a hostia entre nós; a hostia era sempre um doce. No tempo em que brincavamos assim, era muito comum ouvir a minha vizinha: « Hoje ha missa? » Eu ja sabia o que isto queria dizer, respondia afirmativamente, e ia pedir hostia por outro nome. Voltava com ela, arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamos as cerimonias. Dominus, non sum dignus... Isto, que eu devia dizer três vezes, penso que só dizia uma, tal era a golodice do padre e do sacristão. Não bebiamos vinho nem água; não tínhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício.
Ultimamente não me falavam já do seminário, a tal ponto que eu supunha ser negócio findo. Quinze anos, não havendo vocação, pediam antes o seminário do mundo que o de S. José. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a pretexto de nada, para apertal-a muito.