XCV
O papa
Dom Casmurro, de Machado de Assis
XCV
O papa.
A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José Dias não lhe quis ficar atraz. Na primeira semana disse-me este em casa :
— Agora é certo que você vai sair já do seminário.
— Como?
— Espere até amanhã. Vou jogar com eles que me chamaram; amanhã, lá no quarto, no quintal, ou na rua, indo á missa, conto-lhe o que ha. A ideia é tão santa que não está mal no santuário. Amanhã, Bentinho.
— Mas é coisa certa?
— Certissima!
No dia seguinte revelou-me o mistério. Ao primeiro aspecto, confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era não
menos que isto. Minha mãe, ao parecer dele, estava arrependida do que fizera, e desejaria ver-me cá fora, mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria rompel-o, e para tanto valia a Escriptura, com o poder de desLigar dado aos apostolos. Assim que, ele e eu iriamos a Roma pedir a absolvição do papa... Que me parecia?
— Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexão. Pode ser um bom remédio.
— É o único, Bentinho, é o único! Vou já hoje conversar com D. Glória, exponho-lhe tudo, e podemos partir daqui a dois meses, ou antes...
— Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...
— Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. Pensar em que? Você o que quer... Digo? não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa.
Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitu e Escobar, mas eu neguei a pés juntos que quizesse consultar ninguém. E que pessoa, o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assunto. Não, nem reitor, nem professor, nem ninguém; era só o tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me parecia má.
— Não?
— Não.
— Pois resolvamos hoje mesmo.
— Não se vai a Roma brincando.
— Quem tem boca vai a Roma, e boca no nosso caso é a moeda. Ora, você pode muito bem gastar comsigo... Comigo, não; um par de calças, três camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei como S. Paulo, que vivia do ofício enquanto ia prégando a palavra divina. Pois eu vou, não prégal-a, mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio e do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos... Bem sei a objecção que se pode opôr a esta ideia; dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe; mas, além do mais que não digo, basta reflectir que é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se aos pés do papa o próprio objecto do favor, o levita prometido, que vai pedir para sua mãe ternissima e dulcissima a dispensa de Deus. Considere o quadro, você beijando o pé ao príncipe dos apostolos; Sua Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se, interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam, a Virgem recomenda ao santissimo filho que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos, e que o que você amar na terra seja egualmente amado no céu...
Não digo mais, porque é preciso acabar o capítulo, e ele não acabou o discurso. Falou a todos osmeus sentimentos de católico e de namorado. Vi a alma aliviada de minha mãe, vi a alma feliz de Capitu, ambas em casa, e eu com elas, e ele conosco, tudo mediante uma pequena viagem a Roma, que eu só geograficamente sabia onde ficava; espiritualmente, também, mas a distancia que estaria da vontade de Capitu é que não. Eis o ponto essencial. Se Capitu achasse longe, não iria; mas era preciso ouvil-a, e assim também a Escobar, que me daria um bom conselho.