XCIX
O filho é a cara do pai
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Minha mãe, quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade. Ainda ouço a voz de José Dias, lembrando o evangelho de S. João, e dizendo ao ver-nos abraçados.
— Mulher, eis aí o teu filho! Filho, eis aí a tua mãe!
Minha mãe, entre lágrimas :
— Mano Cosme, é a cara do pai, não é?
— Sim, tem alguma coisa, os olhos, a disposição do rosto. É o pai, um pouco mais moderno, concluiu por chalaça. E diga-me agora, mana Glória, não foi melhor que ele não teimasse em ser padre? Veja se este peralta daria um padre capaz.
— Como vai o meu substituto?
— Vai indo, ordena-se para o ano, respondeu tio Cosme. Has de ir ver a ordenação; eu também, se o meu senhor coração consentir. É bom que te
sintas na alma do outro, como se recebesses em ti mesmo a sagração.
— Justamente! exclamou minha mãe. Mas veja bem, mano Cosme, veja se não é a figura do meu defuncto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre achei que te parecias com ele, agora é muito mais. O bigode é que desfaz um pouco...
— Sim, mana Glória, o bigode realmente... mas é muito parecido.
E minha mãe beijava-me com uma ternura quo não sei escrever. Tio Cosme, para alegral-a, chamavame doutor, José Dias também, e todos em casa, a prima, os escravos, as visitas, Pádua, a filha, e ela mesma repetiam-me o título.