XCIII
Um amigo por um defuncto
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Quanto á outra pessoa que teve a força obliterativa, foi o meu colega Escobar que no domingo, antes do meio dia, veio ter a Matacavalos. Um amigo supria assim um defuncto, e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se me não visse desde longos meses.
— Você janta comigo, Escobar?
— Vim para isto mesmo.
Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e ele respondeu com muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra pronta. Já viste que não era assim, a palavra obedecia-lhe, mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. O que ele disse, em resumo, foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação; no seminário dos me queriam bem, nem podia deixar de ser assim, acrescentou. Insistia na educação, nos bons exemplos, « na doce e rara mãe » que o céu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e trêmula. Todos ficaram gostando dele. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. José Dias desfechou-lhe dois superlativos, tio Cosme dois capotes, e prima Justina não achou tacha que lhe pôr; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metidiço e tinha uns olhos policiaes a que não escapava nada.
— São os olhos dele, expliquei.
— Nem eu digo que sejam de outro.
— São olhos reflectidos, opinou tio Cosme.
— Seguramente, acudiu José Dias, entretanto, pode ser que a senhora D. Justina tenha alguma razão. A verdade é que uma coisa não impede outra, e a reflexão casa-se muito bem á curiosidade natural. Parece curioso, isso parece, mas...
— A mim parece-me um mocinho muito serio, disse minha mãe.
— Justamente! confirmou José Dias para não discordar dela.
Quando eu referi a Escobar aquela opinião do minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer dele foi extraordinario. Agradeceu, dizendo que eram bondades, e elogiou também minha mãe, senhora grave, distincta e moça, muito moça... Que idade teria? — Já fez quarenta, respondi eu vagamente por vaidade.
— Não é possível! exclamou Escobar. Quarenta anos! Nem parece trinta; está muito moça e bonita. Também a alguém ha de você sair, com esses olhos que Deus lhe deu; são exactamente os dela. Enviuvou ha muitos anos?
Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. Escobar escutava atento, perguntando mais, pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça, tão pequenino viera, contou-me duas ou três reminiscencias dos seus três anos de idade, ainda agora frescas. E não contavamos voltar á roça?
— Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquele preto que ali vai passando, é de lá. Tomaz!
— Nhonhô!
Estávamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço; chegou-se a nós e esperou.
— É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está?
— Está socando milho, sim, senhor.
— Você ainda se lembra da roça, Tomaz?
— Alembra, sim, senhor.
— Bem, vá-se embora.
Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquele José, aquele outro Damiao...
— Todas as letras do alfabeto, interrompeu Escobar.
Com efeito, eram diferentes letras, e só então e só então reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um apelido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação como Pedro Benguela, Antonio Moçambique...
— E estão todos aqui em casa? perguntou ele.
— Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possível ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá.
— O que me admira é que D. Glória se acostumasse logo a viver em casa da cidade, onde tudo é apertado; a de lá é naturalmente grande.
— Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas maiores que esta; diz porém que ha de morrer aqui. As outras estão alugadas. Algumas são bem grandes, como a da rua da Quitanda...
— Conheço essa; é bonita.
— Tem também no Rio Comprido, na Cidade-Nova, uma no Catete...
— Não lhe hão de faltar tectos, concluiu ele sorrindo com simpatia.
Caminhámos para o fundo. Passámos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; depois continuámos. Quais foram as reflexões não me lembra agora; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo, por palavras tão finas e altas que me comoveram; depois, a propósito da beleza moral que se ajusta á física, tornou a falar de minha mãe, « um anjo dobrado », disse ele.