XCII
O diabo não é tão feio como se pinta.
Dom Casmurro, de Machado de Assis
XCII
Manduca enterrou-se sem mim. A muitas outros aconteceu a mesma coisa, sem que eu sentisse nada, mas este caso afligiu-me particularmente pela razão já dita. Também senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polemica da vida, o gosto com que ele recebia os meus papeis e se propunha a refutal-os, não contando o gosto do carro... Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e resurreições. Nem foi só ele; duas pessoas vieram ajudal-o, Capitu, cuja imagem dormiu comigo na mesma noite, e outra que direi no capítulo que vem. O resto deste capítulo e só para pedir que, se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta. Quero dizer...
Quero dizer que o meu vizinho de Matacavalos, temperando o mal com a opinião anti-russa, dava á podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. Ha consolações maiores, de certo, e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algum, mas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes, e aos mais nojentos ou mais aflictos acena com uma flor. E talvez saia assim a flor mais bela; o meu jardineiro afirma que as violetas, para terem um cheiro superior, hão mister de estrume de porco. Não examinei, mas deve ser verdade.