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VI

Tio Cosme

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Ouvir este capítulo, na voz Francisca (Microsoft, 1.3x)

A narração acompanha o texto abaixo, já em grafia atual.

Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ela enviuvou. Já então era viuvo, como prima Justina; era a casa dos três viúvos.

A fortuna troca muita vez as mãos á natureza. Formado para as serenas funcções do capitalismo, tio Cosme não enriquecia no fôro: ia comendo. Tinha o escriptorio na antiga rua das Violas, perto do jury, que era no extincto Aljube. Trabalhava no crime. José Dias não perdia as defesas oraes de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos comprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais modesto que quizesse ser, sorria de persuasão.

Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações mais antigas era vel-o montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escriptorio. O preto que a tinha ido buscar á cocheira, segurava o freio, enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de descanço ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, egual efeito. Emfim, após alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e moraes, dava o último surto da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a besta partia a trote.

Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apezar dos costumes do tempo, eu não sabia montar, e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove anos), sósinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei a gritar desesperadamente : « Mamãe! mamãe! » Ela acudiu pálida e trêmula, cuidou que me estivessem matando, apeou-me, afagou-me, enquanto o irmão perguntava:

— Mana Glória, pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa?

— Não está acostumado.

— Deve acostumar-se. Padre que seja, se fôr vigário na roça, é preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quizer florear como os outros rapazes, e não souber, ha de queixar-se de você, mana Glória.

— Pois que se queixe; tenho medo.

— Medo! Ora, medo!

A verdade é que eu sé vim a aprender equitação mais tarde, menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. « Agora é que ele vai narmorar devéras », disseram quando eu comecei as licções. Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era velho costume e necessidade. Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de muitas damas, além de partidario exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual, e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e especificas. Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilherias.