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LXXXII

O canapé

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Deles, só o canapé pareceu haver comprehendido a nossa situação moral, visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha, com tal insistência que os aceitámos e nos sentámos. Data dahi a opinião particular que tenho do canapé. Ele faz aliar a intimidade e o decôro, e mostra a casa toda sem sair da sala. Dois homens sentados nele pódem debater o destino de um império, e duas mulheres a graça de um vestido ; mas, um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos. Foi o que fizemos, Capitu e eu. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande...

— Não sei; a febre parece que cede... mas...

Também me lembra, vagamente, que lhe expliquei a minha visita á rua dos Invalidos, com a pura verdade, isto é, a conselho do minha mãe

— Conselho dela? murmurou Capitu.

E acrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente:

— Seremos felizes!

Repeti esta palavras, com os simples dedos, apertando os dela. O canapé, quer visse ou não, continuou a prestar os seus serviços ás nossas mãos presas e ás nossas cabeças juntas ou quase juntas.