LXXIV
A presilha
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, um sentado, outro andando e parando. A vista de José Dias lembrou-me o que ele me disséra no seminário : « Aquilo enquanto não pegar algum peralta da visinhança que case com ela.... » Era certamente alusão ao cavaleiro. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispoz a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe se falára de verdade ou por hipótese; mas José Dias, que parára ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir á casa ao pé, imaginava que Capitu saisse da janela assustada e não tardasse a aparecer, para indagar e explicar.... E os dois falavam, até que tio Comes
ergueu-se para ir ver a doente, e José Dias veio ter comigo, ao vão da outra janela.
Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente dizer-m'o, fiquei com medo de ouvil-o. Quis tapar-lhe a boca. José Dias viu no meu rosto algum signal diferente da expressão habitual, e perguntou-me com interesse :
— Que é, Bentinho?
Para não fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada, e, como ele insistisse em saber o que é que eu tinha, respondi apontando com o dedo:
— Olhe a presilha, abotoe a presidia.
José Dias inclinou-se, eu saí correndo.