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LXVIII

Adiemos a virtude

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Poucos teriam ânimo de confessar aquele meu pensamento da rua de Matacavalos. Eu confessarei tudo o que importar á minha história. Montaigne escreveu de si : ce ne sont pas mês gestes que j'escris; ce'st moi, ce'st mon essence. Ora, ha só um modo de escrever a propria essência, é contal-a toda, o bem e o mal. Tal faço eu, á medida que me vai lembrando e convindo á construcção ou reconstrucção de mim mesmo. Por exemplo, agora que contei um pecado, diria com muito gosto alguma bela acção contemporanea, se me lembrasse, mas não me lembra ; fica transferida a melhor oportunidade.

Nem perderás em esperar, meu amigo; ao contrário, acóde-me agora que... Não só as belas acções são belas em qualquer ocasião, como são também possíveis e provaveis, pela teoria que tenho dos

pecados e das virtudes, não menos simples que clara. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com certo número deles e delas, aliados por matrimônio para se compensarem na vida. Quando um de tais conjuges é mais forte que o outro, ele só guia o indivíduo, sem que este, por não haver praticado tal virlude ou cometido tal pecado, se possa dizer isento de um ou de outro; mas a regra é dar-se a prática simultanea dos dois, com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos extranhos; falta-me tempo.

Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns daqueles casaes, e naturalmente ainda os possuo. Já me sucedeu, aqui no Engenho Novo, por estar uma noite com muita dôr de cabeça, desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a tinha por muitas horas, ainda que morresse alguém; e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão. Voilà mês gestes, voilà mon essence.