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LXIX

A missa

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. Antonio dos Pobres. O agregado quis ir comigo, e principiou a vestir-se, mas era tão lento nos suspensorios e nas presilhas, que não pude esperar por ele. Demais, eu queria estar só. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia, e era reconciliar-me com Deus, depois do que se passou no capítulo LXVII. Nem era só pedir-lhe perdão do pecado, era também agradecer o restabelecimento de minha mãe, e, visto que digo tudo, fazel-o renunciar ao pagamento da minha promessa. Jehovah, posto que divino, ou por isso mesmo, é um Rotschild muito mais humano, e não faz moratorias, perdoa as dívidas integralmente, uma vez que o devedor queira devéras emendar a vida e cortar nas despezas. Ora, eu não queria outra coisa; dali em deante não faria mais promessas que não pudesse pagar, e pagaria logo as que fizesse.

Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida e saúde de minha mãe; depois pedi perdão do pecado e relevação da divida, e recebi a benção final do oficiante como um acto solene de reconciliação. No fim, lembrou-me que a igreja estabeleceu no confessionario um cartório seguro, e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas moraes entre o homem e Deus. Mas a minha incorrigivel timidez me fechou essa porta certa; receiei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publical-o.