LXIII
Metades de um sonho
Dom Casmurro, de Machado de Assis
ersava com a minha amiga ao pé da janela. Corri ao logar, ele fugiu; avancei para Capitu, mas não estava só, tinha o pai ao pé de si, enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Não me parecendo isto claro, ia pedir a explicação, quando ele de si mesmo a deu; o peralta fôra levar-lhe a lista dos premios da loteria, e o bilhete sairá branco. Tinha o número 4004. Disse-me que esta simelria de algarismos era misteriosa e bela, e provavelmente a roda andára mal; era impossível que não devesse ter a sorte grande. Enquanto ele falava, Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a boca. E aqui entra a segunda parte do sonho. Pádua desapareceu, como as suas esperanças do bilhete. Capitu inclinou-se para fora, eu relancei do olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas mãos, resmunguei não sei que palavras, e acordei sósinho no dormitório.
O interesse do que acabas de ler não está na matéria do sonho, mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos, apertal-os bem, esquecer tudo para dormir, mas não dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono até á madrugada. Sobre a madrugada, consegui concilial-o, mas então nem peraltas, nem bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas,— nada dos nadas veio ter comigo. Não sonhei mais aquela noite, e dei mal as licções daquele dia.