LIV
Panegirieo de Santa Monica
Dom Casmurro, de Machado de Assis
No seminário... Ah! não vou contar o seminário, nem me bastaria a isso um capítulo. Não, senhor meu amigo; algum dia, sim, é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi, das pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos cincoenta anos, não despega mais. Na mocidade é possível curar-se um homem dela; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compoz versos, á maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de frade poeta era recente. Ordenou-se; anos depois encontrei-o no côro de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.
— Que versos? perguntou meio espantado.
— Os seus. Pois não se lembra que no seminário... — Ah! sorriu ele.
Sorriu, e continuando a procurar n'um livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte, confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade; coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia, a vida cara, um sermão do padre X... uma vigairaria mineira...
Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto um Panegirico de Santa Monica, elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. Alcançou licença de imprimil-o, e dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso é história velha; o que é mais moço é que um dia, em 1882, indo ver certo negócio em repartição de marinha, ali dei com este meu colega, feito chefe de uma secção administrativa. Deixará seminário, deixará letras, casára e esquecera tudo, menos o Panegirico de Santa Monica, umas vinte e nove páginas, que veio distribuindo pela vida fora. Como eu precisasse de algumas informações, fui pedir-lh'as, e seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente conversámos do passado, memórias pessoaes, casos de estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá fora, e rimos juntos, e suspirámos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. Ou porque eram dele, ou porque éramos então moços, as recordações traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra contraria houve então, não apareceu agora. Ele confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminário.
— Também eu, quase todos; uma vez ordenados, voltaram naturalmente ás suas provincias, e os daqui tomaram vigairarias fora.
— Bom tempo ! suspirou ele.
E, após alguma reflexão, fitando em mim uns olhos murehos e teimosos, perguntou-me :
— Conservou o meu Panegirico ?
Não achei que dizer; tentei mover os beiços, mas : não tinha palavra; afinal, perguntei :
— Panegirico? Que panegirico?
— O meu Panegirico de Santa Monica.
Não me lembrou logo, mas a explicação devia bastar; e depois de alguns instantes de pesquiza mental, respondi que por muito tempo o conservára, mas as mudanças, as viagens...
— Hei de levar-lhe um exemplar.
Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis anos, encardido, manchado do tempo, mas sem lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.
— É o penultimo exemplar, disse-me; agora só me resta um, que não posso dar a ninguém.
E como me visse folhear o opusculo :
— Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.
Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assiduas, mas era cortezia, tezia, era quase caridade recordar alguma lauda; li uma delas, acentuando certas frases para lhe dar a impressão de que achavam echo em minha memória. Concordou que fossem belas, mas preferia outras, e apontou-as.
— Recorda-se bem ?
— Perfeitamente. Panegirico de Santa Monica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário, creia. Os anos passam, os acontecimentos vêm uns sobre outros, e as sensações também, e vieram amizades novas, que também se foram depois, como é lei da vida... Pois, meu caro colega, nada fez apagar aquele tempo da nossa convivência, os padres, as licções, os recreios... os nossos recreios, lembra-se? o padre Lopes, oh! o padre Lopes...
Ele, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de silêncio, recolhendo os olhos e um suspiro !
— Tem agradado muito este meu Panegirico!