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II

Do livro

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Ouvir este capítulo, na voz Francisca (Microsoft, 1.3x)

A narração acompanha o texto abaixo, já em grafia atual.

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

Vivo só, com um creado. A casa em que moro é propria; fil-a construir de propósito, levado de um desejo Lão particular que me vexa imprimil-o, mas vá lá. Um dia, ha bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Constructor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do lecto e das paredes é mais ou menos egual, umas grinaldas de flores miudas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decenio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também analogo e parecido. Tenho chacarinha, flôres, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobilia velha. Emfim, agora, como outr'ora, ha aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompôr o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é egual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante á pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autopsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me désse vinte anos de idade poderia enganar os extranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto ás amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a lingua que falam obriga muita vez a consultar os dicionarios, e tal frequencia é cançativa.

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida peor; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é lambem exacto que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distracções raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

Ora, como tudo cança, esta monotonia acabou por exhaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudencia, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Suburbios, menos seca que as memórias do padre Luiz Gonçalves dos Santos, relativas á cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo arido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me désse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras...?

Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentarios, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscencias que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de Novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e peores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vás entender, lendo.