CXXX
Um dia
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Porquanto, um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. E propoz-me a Europa, Minas, Petrópolis, uma série de bailes, mil desses remédios aconselhados aos melancolicos. Eu não sabia que lhe respondesse; recusei as diversões. Como insistisse, repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal. Capitu sorriu para animarme. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem, e até lá as jóias, os objectos de algum valor seriam vendidos, e iriamos residir em algum beco. Viveriamos socegados e esquecidos; depois tornariamos á tona da água. A ternura com que me disse isto era de comover as pedras. Pois nem assim. Respondi-lhe secamente que não era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido. Ela propoz-me jogar cartas ou damas, um passeio a pé, uma visita a Matacavalos; e, como eu não aceitasse nada, foi para a sala, abriu o piano, e começou a tocar; eu aproveitei a ausência, peguei do chapéu e saí.
... Perdão, mas este capítulo devia ser precedido de outro, em que contasse um incidente, ocorrido poucas semanas antes, dois meses depois da partida de Sancha. Vou escrevel-o; podia anlepôl-o a este, antes de mandar o livro ao prélo, mas custa muito alterar o número dos páginas; vai assim mesmo, depois a narração seguirá direita até o fim. Demais, é curto.