CXLVII
A exposição retrospectiva
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Já sabes que a minha alma, por mais lacerada que tenha sido, não ficou aí para um canto como uma flor livida e solitária. Não lhe dei essa côr ou descôr. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. Caprichos de pouca dura, é verdade. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva, e, ou se fartam de vel-a, ou a luz da sala esmorece. Uma só dessas visitas tinha carro á porta e cocheiro de libre. As outras iam modestamente, calcante pede, e, se chovia, eu é que ia buscar um carro de praça, e as metia dentro, com grandes despedidas, e maiores recomendações :
— Levas o catalogo?
— Levo; até amanhã.
— Até amanhã.
Não voltavam mais. Eu ficava á porta, esperando, ia até á esquina, espiava, consultava o relógio, e não via nada nem ninguém. Então, se aparecia outra visita, dava-lhe o braço, entravamos, mostrava-lhe as paizagens, os quadros históricos ou de gênero, uma aquarela, um pastel, uma gouache, e também esta cançava, e ia embora com o catalogo na mão....