CX
Rasgos da infância
Dom Casmurro, de Machado de Assis
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O resto come-me ainda muitos capítulos; ha vidas que os tem menos, e fazem-se ainda assim completas e acabadas.
Aos cinco e seis anos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da praia da Glória ; ao contrário, adivinhavam-se nele todos as vocações possíveis, desde vadio até apostolo. Vadio é aqui posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; metia-se ás vezes comsigo, e nisto fazia lembrar a mãe, desde pequena. Assim também, agitava-se todo e instava por ir persuadir ás vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces devéras; não o fazia antes de farto d'eles, mas também os apostolos não levam a boa doutrina senão depois de a lerem toda no coração. Escobar, bom negociante, opinava que a causa principal desta outra inclinação, talvez fosse convidar implicitamente as vizinha
egual apostolado, quando os pais lhe trouxessem doces; e ria-se da propria graça, e anunciava-me. que o faria seu socio.
Gostava de música, não menos que de doce, e eu disse a Capitu que lhe tirasse ao piano o prégão do preto das cocadas de Matacavalos...
— Não me lembra.
— Não diga isso; você não se lembra daquele preto que vendia doce, ás tardes...
— Lembro-me de um preto que vendia doce, mas não sei mais da toada.
— Nem das palavras?
— Nem das palavras.
A leitora, que ainda se lembrará das palavras, dado que me tenha lido com atenção, ficará espantada de tamanho esquecimento, tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes da sua infância e adolescência; haverá olvidado algumas, mas nem tudo fica na cabeça. Assim me replicou Capitu, e não achei tréplica. Fiz, porém, o que ela não esperava; corri aos meus papeis velhos. Em S. Paulo, quando estudante, pedi a um professor de música que me transcrevesse a toada do prégão; ele o fez com prazer (bastou-me repetir-lh'o de memória), e eu guardei o papelinbo; fui procural-o. D'aí a pouco interrompi um romance que ela tocava, com o pedacinho de papel na mão. Expliquei-lh'o; ela teclou as dezeseis notas.
Capitu achou á toada um sabor particular, quase delicioso; contou ao filho a história do prégão, e assim o cantava e teclava. Ezequiel aproveitou a música para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro.
Fazia de médico, de militar, de actor e bailarino. Nunca lhe dei oratorios; mas cavalos de pau e espada á cinta eram com ele. Já não falo dos batalhões que passavam na rua, e que ele corria a ver; todas as creanças o fazem. O que nem todas fazem é ter os olhos que esta tinha. Em nenhuma vi as ancias de gosto com que assistia á passagem da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores.
— Olha, papai! olha !
— Estou vendo, meu filho!
— Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante ! Olha os soldados!
Um dia amanheceu tocando corneta com a mão ; dei-lhe uma cornetinba de metal. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo, gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo, querendo que lhe explicasse uma peça de artilharia, um soldado caído, outro de espada alçada, e todos os seus amores iam para o de espada alçada. Um dia (ingenua idade!) perguntou-me impaciente :
— Mas, papai, porque é que ele não deixa cair a espada de uma vez?
— Meu filho, é porque é pintado.
— Mas então porque é que ele se pintou?
Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldado que se tinha pintado no papel, mas o gravador, e tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura : as curiosidades de Capitu, em suma. Tais são os principaes rasgos da infância: mais um e acabo o capítulo. Um dia, na chacara de Escobar, deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca. O gato nem deixava a presa, nem via por onde fugisse. Ezequiel não disse nada, deteve-se, acocorou-se, e ficou olhando. Ao vel-o assim atento, perguntámos-lhe de longe o que era; fez-nos signal que nos calassemos. Escobar concluiu:
— Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. Os ratos continuam a infestar-me a casa, que é o diabo. Vamos ver.
Capitu quis também ver o filho; acompanhei-os. Efectivamente, era um gato e um rato, lance banal, sem interesse nem graça. A única circumstancia particular era estar o rato vivo, esperneando, e o meu pequeno enlevado. De resto, o instante foi curto. O gato, logo que sentiu mais gente, dispoz-se a correr; o menino, sem tirar-lhe os olhos de cima, fez-nos outro sigual de silêncio; e o silêncio não podia ser maior. Ia dizer religioso, risquei a palavra, mas aqui a ponho outra vez, não só por significar a totalidade do silêncio, mas também porque havia naquela acção do gato e do rato alguma coisa que prendia com ritual. O único rumor eram os últimos guinchos do rato, aliás frouxissimos; as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. Um tanto aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o gato fugiu. Os outros nem tiveram tempo de atalharme, Ezequiel ficou abatido.
— Ora, papai!
— Que foi? A esta hora o rato está comido.
— Pois sim, mas eu queria ver.
Os dois riram-se; eu mesmo achei-lhe graça.