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As piramides

Dom Casmurro, de Machado de Assis

José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe, alternando os jantares da Glória com os almoços de Matacavalos. Tudo corria bem. Ao fim de dois anos de casado, salvo o desgosto grande de não ter um filho, tudo corria bem. Perdera meu sogro, é verdade, e o tio Cosme estava por pouco, mas a saúde de minha mãe era boa; a nossa excelente.

Eu era advogado de algumas casas ricas, e os processos vinham chegando. Escobar contribuira muito para as minhas estréas no fôro. Interveiu com um advogado célebre para que me admitisse á sua banca, e arranjou-me algumas procurações, tudo espontaneamente.

Demais, as nossas relações de família estavam previamente feitas; Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola, Escobar e eu a do seminário. Eles moravam em Andarahy, aonde queriam que fôssemos muitas vezes, e, não podendo ser tantas como desejavamos, íamos lá jantar alguns domingos, ou eles vinham fazel-o conosco. Jantar é pouco. Íamos sempre muito cedo, logo depois do almoço, para gozarmos o dia compridamente, e só nos separavamos ás nove, dez e onze horas, quando não podia ser mais. Agora que penso naqueles dias de Andarahy e da Glória, sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Piramides. Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido, negócio de teatro, não sei que actriz ou bailarina, mas se foi certo, não deu escândalo. Sancha era modesta, o marido trabalhador. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho, replicou-me:

— Homem, deixa lá. Deus os dará quando quizer, e se não der nenhum é que os quer para si, e melhor será que fiquem no céu.

— Uma creança, um filho é o complemento natural da vida.

— Virá, se for necessário.

Não vinha. Capitu pedia-o em suas orações, eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedil-o. Já não era como em creança; agora pagava antecipadamente, como os alugueis da casa.