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« Tu serás feliz, Bentinho! »

Dom Casmurro, de Machado de Assis

No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata, ia pensando na felicidade e na Glória. Via o casamento e a carreira ilustre, enquanto José Dias me ajudava calado e zeloso. Uma fada invisível desceu ali, e me disse em voz egualmente macia e calida : « Tu serás feliz, Bentinho; tu vaes ser feliz. »

— E porque não seria feliz? perguntou José Dias endireitando o tronco e fitando-me.

— Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também, espantado.

— Ouvi o quê?

— Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?

— É boa! Você mesmo é que está dizendo...

Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada; naturalmente as fadas, expulsas dos contos e os contos e dos versos, meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora. Esta, por exemplo, muita vez a ouvi clara e distincta. Ha de ser prima das feiticeiras da Escócia : « Tu serás rei, Macbet! » - « Tu serás feliz, Bentinho ! » Ao cabo, é a mesma predicção, pela mesma toada universal e eterna. Quando voltei do meu espanto, ouvi o resto do discurso de José Dias :

— ... Ha de ser feliz, como merece, assim como mereceu esse diploma que ali está, que não é favor de ninguém. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso; já lhe contei que ouvi da boca dos lentes, em particular, os maiores elogios. Demais, a felicidade não é só a Glória, é também outra coisa... Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias ! O pobre José Dias está aí para um canto, é caju chupado, não vale nada; agora são os novos, os Escobares... Não lhe nego que é moço muito distineto, e trabalhador, e marido de truz; mas,enfim, velho também sabe amar...

— Mas que é ?

— Que ha de ser? Quem é que não sabe tudo?... Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto, que é verdadeiramente uma benção do céu, porque ela é um anjo, é um anjissimo... Perdoe a cincada, Bentinho, foi um modo de acentuar a perfeição daquela moça. Cuidei o contrário, outr'ora; confundi os modos de creança com expressões de caracter, e não vi que essa menina travêssa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fructo sadio e doce... Porque é que não me contou tou também o que outros sabem, e cá em casa está inais que adivinhado e aprovado ?

— Mamãe aprova devéras ?

— Pois então? Temos falado sobre isse, e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos ; pergunte-lhe. Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente... e uma dona de casa, que não lhe digo nada. Depois da morte da mãe, tomou conta de tudo. Pádua, agora que se aposentou, não faz mais que receber o ordenado e entregal-o á filha. A filha é que distribue o dinheiro, paga as contas, faz o rol das despezas, cuida de tudo, mantimento, roupa, luz; você já a viu o ano passado. E quanto á formosura você sabe melhor que ninguém...

— Mas, devéras, mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento ?

— Positivamente, não; fez-me o favor de perguntar se Capitu não ciaria uma boa esposa; eu é que, na resposta, falei em nora. D. Glória não negou e até deu um ar de riso.

— Mamãe sempre que me escrevia, falava de Capitu.

— Você sabe que elas se dão muito, e por isso é que sua prima anda cada vez mais amuada. Talvez agora case mais depressa.

— Prima Justina?

— Não sabe? São contos, naturalmente; mas emfim, o doutor João da Costa enviuvou ha poucos meses, e dizem (não sei, o protonotário contou) dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez, entre si, casando-se. Ha de ver que não ha nada, mas não é fora de propósito, comquanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos... Só se ela é um cemitério, comentou rindo; e logo serio : Digo isto por gracejo...

Não ouvi o resto. Ouvia só a voz da minha fada interior, que me repetia, mas já então sem palavras : « Tu serás feliz, Bentinho! » E a voz de Capitu me disse a mesma coisa, com termos diversos, e assim também a de Escobar, os quais ambos me confirmaram a noticia de José Dias pela sua propria impressão. Emfim, minha mãe, algumas semanas depois, quando lhe fui pedir licença para casar, além do consentimento, deu-me egual profecia, salva a redacção propria de mãe : « Tu serás feliz", meu filho! »