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Poema Matemático

Millor Fernandes

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281 palavras

Às folhas tantas do livro de matemática, um quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a, do ápice à base. 

Uma figura ímpar olhos rombóides, boca trapezóide, corpo ortogonal, seios esferóides. 

Fez da sua uma vida paralela a dela até que se encontraram no infinito. 

"Quem és tu?" - indagou ele com ânsia radical. 

"Eu sou a soma dos quadrados dos catetos, mas pode me chamar de hipotenusa". 

E de falarem descobriram que eram o que, em aritmética, corresponde a almas irmãs, primos entre-si. 

E assim se amaram ao quadrado da velocidade da luz numa sexta potenciação traçando ao sabor do momento e da paixão retas, curvas, círculos e linhas senoidais. 

Nos jardins da quarta dimensão, escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas e os exegetas do universo finito.

Romperam convenções Newtonianas e Pitagóricas e, enfim, resolveram se casar, constituir um lar mais que um lar, uma perpendicular. 

Convidaram os padrinhos: o poliedro e a bissetriz, e fizeram os planos, equações e diagramas para o futuro, sonhando com uma felicidade integral e diferencial. 

E se casaram e tiveram uma secante e três cones muito engraçadinhos e foram felizes até aquele dia em que tudo, afinal, vira monotonia. 

Foi então que surgiu o máximo divisor comum, freqüentador de círculos concêntricos viciosos, ofereceu-lhe, a ela, uma grandeza absoluta e reduziu-a a um denominador comum.

Ele, quociente percebeu que com ela não formava mais um todo, uma unidade. 

Era o triângulo tanto chamado amoroso desse problema, ele era a fração mais ordinária. 

Mas foi então que Einstein descobriu a relatividade e tudo que era espúrio passou a ser moralidade, como, aliás, em qualquer Sociedade ...

Autor: Millor Fernandes

O Beijo, Edvard Munch
O Beijo, Edvard MunchArte escolhida pelo tema amor. Domínio público. Ver no Wikimedia Commons