Os Anjos da Meia-Noite, de Castro Alves: o anjo como lembrança
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Nem todo anjo da literatura vem do relato bíblico. Em Os Anjos da Meia-Noite, Castro Alves usa a palavra para falar de lembranças de amor. O poema faz parte de Espumas Flutuantes, livro do poeta baiano publicado em 1870. Como Castro Alves morreu em 1871, o texto está em domínio público.
A cena de abertura é uma noite de insônia. O poeta compara a insônia, numa imagem do poema, a um vampiro e também ao arcanjo da guarda do sepulcro, que vela à noite. Há um travesseiro suado, o vento no pinheiro, a luz que estala e se apaga. Então o quarto se transforma e surge uma procissão.
Os anjos aparecem em brancos mantos, passando à meia-noite. O poeta os reconhece assim: "São os Anjos de amor de meu passado / Que desfilando vão...". Quem passa são as mulheres que ele amou, e ele as chama de almas que um dia derramaram nele a semente dos sonhos.
Ele mistura imagens sagradas para nomeá-las: "Madonas, Querubins ou Madalenas", diz o verso. Nesse poema, portanto, o anjo não é mensageiro de Deus, nem figura do relato bíblico. É a imagem que o poeta usa, no poema, para as mulheres que amou.
Depois dessa primeira parte, o poema se divide em sete sonetos numerados de II a VIII. Cada um apresenta uma "sombra", e quase todas têm nome: Marieta, Bárbora, Ester, Fabíola, a quinta e a sexta juntas (Cândida e Laura) e Dulce. A última, o "último fantasma", não é nomeada, e o poeta lhe pergunta quem é.
O poema mostra um uso literário da palavra anjo: tomar a figura religiosa e deslocá-la para o amor e a memória. Para o leitor de hoje, vale lembrar que a leitura de um poema é livre. Este verbete descreve o poema e propõe uma leitura dele.
Para conferir
- Wikisource em português, Os Anjos da Meia-Noite, de Castro Alves (domínio público), consultado em 21/10/2026: Texto do poema Os Anjos da Meia-Noite, de Castro Alves, conferido em 21/10/2026 (primeira parte, "Fotografias", e sonetos II a VIII). Versos citados: "São os Anjos de amor de meu passado / Que desfilando vão..." e "Madonas, Querubins ou Madalenas".
- Wikipédia em português, verbete Espumas Flutuantes, consultado em 21/10/2026: Espumas Flutuantes, de Castro Alves, publicado em 1870.







