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Oração sem nome

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25 versos

Meu Deus, escuta; jamais falei contigo,

Hoje quero saudar-te. Bom dia! Como vais?

Disseram-me que não existes,

E eu, tolo, acreditei. 

Nunca havia admirado a tua obra.

Ontem à noite, da trincheira destroçada por granadas,

Vi o teu céu estrelado

E compreendi então que me enganaram. 

Não sei se me apertarás a mão.

Vou te explicar e hás de compreender.

É curioso: neste hediondo inferno

Achei a Luz para enxergar o teu rosto. 

Dito isto, já não tenho muita coisa a te contar: Só que... tenho muito prazer em conhecer-te. 

À meia-noite, iremos ao ataque. 

Não sinto medo, meu Deus, sei que tu velas... 

Ah! Eis o clarim! Bom Deus, devo ir-me embora. 

Gostei de ti, vou ter saudades... Quero dizer: 

Será cruenta a luta, bem o sabes, 

E está noite pode ser que eu vá bater-te à porta! 

Muito amigos não fomos, é verdade. 

Mas... sim, estou chorando! 

Como vês, Deus, penso que já não sou tão mau. 

Bem, tenho de ir. É coisa bem rara a sorte. 

Juro, porém: já não receio a morte... 

(Ninguém conhece o autor deste poema. Foi encontrado em pleno campo de batalha no bolso de um soldado americano. Do rapaz estraçalhado por uma granada restava apenas, intacta, esta folha de papel...)

O Dilúvio, Gustave Doré
O Dilúvio, Gustave DoréArte escolhida pelo tema fé. Domínio público. Ver no Wikimedia Commons