O copo do armário
Na hora de pôr a mesa, ela tirou dois copos do armário. Só percebeu quando o segundo já estava perto do prato. Ficou com a mão parada sobre a toalha.
Havia três meses que o irmão morrera. Mesmo assim, certos movimentos ainda contavam com ele. Separar a parte menos tostada do pão. Deixar espaço no sofá. Ouvir uma notícia e pensar em contar depois.
Ela pegou o copo para guardar, mas viu uma mancha perto da borda. Lavou de novo. Enxugou devagar, acompanhando com o pano uma pequena lasca na base. Lembrou da discussão boba sobre quem tinha derrubado aquilo anos antes.
A lembrança trouxe um riso curto. Depois, lágrimas. Ela deixou o pano na pia e puxou a cadeira. A comida esfriou um pouco enquanto ficava ali.
Mais tarde, a vizinha bateu para devolver uma assadeira. Perguntou se podia entrar. As duas se sentaram, e por algum tempo falaram do preço dos tomates. Então ela contou a história da lasca.
A vizinha ouviu sem procurar uma frase que encerrasse o assunto. Quando a conversa chegou a outras lembranças, já havia café no fogo.
O segundo copo ficou na mesa. A vizinha pediu água, e ela serviu.



