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O armário dos materiais

Meu caro,

Você perguntou como anda a pintura. A resposta mais honesta começa pelo armário: há tintas fechadas atrás de tintas fechadas. Comprei material para técnicas que mal conheço, aproveitei descontos, fiz planos para quando tivesse tudo. Enquanto isso, parei de pintar.

Durante um tempo, chamei aquilo de preparação. Agora consigo dizer que errei na medida. Gastei além do que havia separado e transformei uma vontade simples numa coleção de compras. Não houve uma grande cena, só uma sequência de pequenas encomendas chegando à porta.

Meu primeiro impulso foi comprar um estojo mais básico, como se o recomeço também precisasse ser entregue pelo correio. Cheguei a escolher a cor. Foi aí que percebi o quanto o gesto já estava automático.

Neste mês, abri um dos tubos que tinha e usei o verso de uma tela antiga. A pintura ficou pesada. Parei, lavei o pincel e voltei dois dias depois. Tenho feito assim: antes de procurar material, olho o que fiz na sessão anterior e escolho uma coisa para experimentar.

O valor gasto continua fazendo falta. Ainda sinto vontade de encomendar novidades. Mas já posso responder à sua pergunta falando de uma cor que misturei, em vez de uma caixa que estou esperando.

Abraço.