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Frases de saudade de um lugar, da ligação interurbana ao mapa por satélite no celular

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410 palavras

Quem mudou de endereço guarda a foto da rua no disquete, espera a linha discada conectar e, hoje, amplia o quintal da infância no mapa do celular. Estas vinte frases são ditas por quem partiu a quem ficou no mesmo lugar.

Abri a carta que chegou pelo correio e passei o polegar sobre a fotografia em papel da nossa rua de terra.

Meu primo filmou a nossa varanda numa fita VHS e eu pausei a imagem no videocassete sobre a cadeira de balanço.

Gastei o cartão telefônico no orelhão interurbano só para ouvir, no fone que minha mãe estendeu à janela, o galo cantando no quintal.

Aguardei o chiado do modem na linha discada até a foto do campinho carregar linha por linha.

Esperei o pulso único da madrugada para abrir o correio eletrônico com notícias da serra.

Guardei no disquete a imagem da casa onde passei toda a minha infância.

Ouvi o uh-oh do ICQ quando um vizinho entrou para conversar sobre a feira da nossa praça.

Entrei no canal do mIRC da cidade onde cresci procurando notícias da ponte de madeira sobre o ribeirão.

Gravei em um CD as fotos digitalizadas da ladeira de paralelepípedos antes da obra de asfalto.

Publiquei no fotolog a foto da padaria esperando os comentários de quem ficou na colina.

Digitei no teclado do telefone um torpedo perguntando se já chovia no nosso sertão.

A janela do MSN tremeu e meu irmão virou a webcam para a calçada, me mostrando a reforma da mercearia da rua.

Abri devagar o álbum do Orkut com as doze fotos da nossa turma sentada na mureta do campo de várzea.

Paguei uma hora na lan house do bairro vizinho apenas para imprimir a fotografia da casa dos meus avós.

Vi a conexão 3G carregar aos poucos a foto do coreto no centro da nossa vila.

Silenciei a conversa do grupo da família, mas abri todas as fotos do almoço de domingo debaixo da parreira.

Abri o story que minha prima postou do açude e dei zoom na água parada até enxergar o trapiche de tábuas.

Encostei o telefone no ouvido bem cedo para escutar no áudio as maritacas gritando no topo da gameleira do nosso quintal.

Pedi para virarem a câmera durante a chamada de vídeo e vi a nossa esquina recebendo a chuva de verão.

Ampliei o mapa por satélite na tela do celular até reconhecer a copa da amendoeira e o nosso portão de ferro.