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Frases de família, do porta-retratos ao grupo que não para de tocar

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A família guarda o rolo de filme de trinta e seis poses, esperava a ligação chegar no orelhão e hoje responde áudio em cima de áudio no grupo que nunca silencia. Estas vinte frases são ditas por quem cresceu nessa mesa e ainda sente falta da bagunça.

Minha mãe contava os créditos no cartão do orelhão para ouvir a voz da minha tia do outro estado.

O cartão postal da praia chegava amassado pelo carteiro e ficava preso com ímã na porta da geladeira.

Guardamos o rolo de trinta e seis poses para o aniversário, e minha avó chorou ao ver as fotos reveladas.

A voz do meu avô contando causos ficou gravada naquela fita cassete gasta que ainda escutamos juntos na sala.

Procurávamos o endereço dos parentes nas páginas grossas da lista telefônica aberta sobre a mesa da cozinha.

Meu pai ajeitava o pedaço de palha de aço na antena da televisão para vermos a partida reunidos na sala.

As luzes do videocassete piscavam enquanto a família ria revendo as gravações caseiras daquele Natal.

Compramos a primeira máquina digital para o batizado e meu tio ficou horas mostrando a telinha a cada convidado.

O toque polifônico da bolsa da vovó soltou uma valsa em plena sobremesa, e a sala inteira riu até chorar.

Nossa mãe pedia ajuda para aceitar o depoimento que a tia deixou no Orkut sobre o almoço da semana passada.

Minha irmã fazia a janela do MSN tremer para avisar que a macarronada de domingo estava posta na mesa.

O pen drive ia de mão em mão na varanda até alguém ligar o notebook para ver as fotos do casamento.

A família inteira gritava na frente do Skype para mandar um abraço aos parentes que estavam no exterior.

Meu tio ergueu o bastão de selfie e quase derrubou o pudim da mesa para encaixar todos os netos no clique.

Ouvimos no viva-voz aquele áudio de dez minutos em que a vovó detalha a receita da torta de frango.

Nosso tio repassa pela vigésima vez a corrente sobre melancia com café, e a família responde só com figurinhas de risada.

A panela de barro mal saiu do fogão e já tinha foto do feijão fervendo compartilhada no grupo da família.

Na quarentena, primos de três cidades apareciam em janelinhas na tela e riam juntos das mesmas histórias dos nossos pais.

Tentei ouvir o áudio do tio em velocidade dobrada, mas voltei ao normal para não perder a gargalhada dele no final.

O celular avisou que a memória lotou com centenas de fotos repetidas do mesmo almoço de aniversário dos netos.