Conto de crianças
Como o portal publicou, entre 1998 e 2006.
- Tamanho
- 84 versos
No princípio, não eram aves
nem eram flores...
Logo após o início dos tempos
com uma pincelada aqui
mais uma cor além,
restos de tinta seca
morrendo aos poucos
em paleta de pintor cansado,
nasceram os alados.
Ainda não eram aves - não;
mas sim monstros - isso eram.
Bicos enormes
povoados de dentes
em corpos de répteis
e um tufo de penas
ali e acolá;
mas quantas vezes
- Hum! Repugnante,
assustador -
couraçados pelados
cruzando os ares.
E para tanto deles
voar era apenas
um sonho distante.
Somente planavam
como aliados alados da morte;
do pico de um abismo
para o pico de outro.
Mas um dia...
Ah! Mas um dia,
um feio e horroroso monstro
- igual a tantos outros -
parou para olhar uma plantinha
Encontrou-a tão singela, simples,
desprotegida e bela,
que não mais deixou de a olhar.
Com o tempo
descobriu que era mais;
sabia agora
que era amar.
Amava aquele ser vegetal
de uma cor só,
simples, silêncioso
e que dos seres era o mais lindo.
E de tal modo amou a plantinha
que a cada dia que passava
e como que por magia.
era cada vez menos alado
e muito mais plantinha.
A planta
- linda -
qual conto da Bela e do Monstro,
também a cada dia que passava
deixava de ser vegetal !
e era mais animal.
Finalmente, num dia muito especial
o feio animal dos ares,
beijo-a.
Um estremecimento da mais pura
felicidade
invadiu os dois.
Mais tarde e quem por ali passasse
veria um corpo enorme e feio
hirto e frio
ao lado da pequenina planta
seca e murcha.
Tinham morrido de felicidade.
As suas almas que tanto se tinham amado
subiram ao céu
onde se juntaram numa só
para todo o sempre.
E desde esse dia em diante
não mais cessou de acontecer,
criaturas aladas caíam na terra
e aí se revestiam de formas e de cores;
quentes e macias plantas
ao sabor das correntes
e aos cheiros dos ventos
não mais pararam de voar.
E foi assim,
tal como no mais,
que nasceu a primeira ave
e a primeira flor
- POR AMOR.
Autor: Manuel Tomé

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