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O fantasma e a canção

Castro Alves

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75 versos

Orgulho! desce os olhos dos céus
sobre ti mesmo; e vê como os nomes
mais poderosos vão se refugiar n'uma
canção.

BYRON 

Quem bate? "A noite é sombria!"
Quem bate? "É rijo o tufão! ...
Não ouvis? a ventania
Ladra à lua como um cão."
Quem bate? "O nome qu'importa?
Chamo-me dor... abre a porta!
Chamo-me frio... abre o lar!
Dá-me pão... chamo-me fome!
Necessidade é o meu nome!"
Mendigo! podes passar!

"Mulher, se eu falar, prometes
A porta abrir-me?" Talvez.
"Olha... Nas cãs deste velho
Verás fanados lauréis.
Há no meu crânio enrugado
O fundo sulco traçado
Pela c'roa imperial.
Foragido, errante espectro,
Meu cajado já foi cetro!
Meus trapos manto real!"

Senhor, minha casa é pobre...
Ide bater a um solar!
"De lá venho... O Rei-fantasma
Baniram do próprio lar.
Nas largas escadarias,
Nas vetustas galerias,
Os pajens e as cortesãs
Cantavam! ... Reinava a orgia! ... 
Festa! Festa! E ninguém via 
O Rei coberto de cãs!"

Fantasmas! Aos grandes, que tombam, 
É palácio o mausoléu! 
"Silêncio! De longe eu venho... 
Também meu túmulo morreu.
O séc’lo traça que medra
Nos livros feitos de pedra
Rói o mármore, cruel.
O tempo Átila terrível
Quebra co'a pata invisível
Sarcófago e capitel.

"Desgraça então para o espectro,
Quer seja Homero ou Solon,
Se, medindo a treva imensa
Vai bater ao Panteon...
o motim Nero profano
No ventre da cova insano
Mergulha os dedos cruéis.
Da guerra nos paroxismos
Se abismam mesmo os abismos
E o Morto morre outra vez!

"Então, nas sombras infindas,
S'esbarram em confusão
Os fantasmas sem abrigo
Nem no espaço, nem no chão...
As almas angustiadas,
Como águias desaninhadas,
Gemendo voam no ar.
E enchem de vagos lamentos
As vagas negras dos ventos,
Os ventos do negro mar!

"Bati a todas as portas 
Nem uma só me acolheu!..." 
"Entra! : Uma voz argentina 
Dentro do lar respondeu. 
"Entra, pois! Sombra exilada, 
Entra! O verso é uma pousada 
Aos reis que perdidos vão. 
A estrofe é a púrpura extrema, 
Último trono é o poema! 
Último asilo a Canção!..."

Na coleção Halloween, leitura 2 de 15
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O Tocador de Alaúde, Caravaggio
O Tocador de Alaúde, CaravaggioArte escolhida pelo tema música. Domínio público. Ver no Wikimedia Commons