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Caminho do Meio

Fátima Irene Pinto

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28 versos

Reparaste que eu avanço na exata proporção do teu recuo?
Se te mantivesses no caminho do meio eu não precisaria avançar
e tampouco tu precisarias recuar...

Reparaste que eu encho a tua taça na mesma proporção
de que ela se me apresenta sempre vazia?
Se ela se mantivesse à meia borda,
por certo eu não a transbordaria...

Reparaste que eu falo demais
na exata medida em que tu falas de menos?
Se ao invés de silêncio retornasses as minhas falas,
na tua fala, o meu próprio silêncio se equilibraria...

Reparaste que todos os meus sins se contrapõem a todos os teus nãos?
Se houvesse alguns sins dentre os teus nãos,
os meus próprios sins aprenderiam a dizer talvez e no talvez,
os nossos sins e nãos se reconciliariam...

Avança um pouco para que eu consiga recuar
Transborda um tanto a minha taça para que eu possa esvaziar
Rasga de leve o teu silêncio para que eu aprenda a me calar
Articula algumas afirmações para que eu aprenda a me negar
Fica da minha altura para que eu não tenha que esticar
Equilibra assim os nossos pratos
Para além da nossa guerra de egos
E só então, em plenitude e verdade
Eu poderei te amar...

Fátima Irene Pinto
Do livro Momentos Catárticos

http://www.fatimairene.com

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Estrada com ciprestes sob o céu estrelado, Vincent van Gogh
Estrada com ciprestes sob o céu estrelado, Vincent van GoghArte escolhida pelo tema caminho. Domínio público. Ver no Wikimedia Commons