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Se Muito Sofri Já, Não Me Perguntes

Gonçalves Dias

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44 versos

Se muito sofri já, se ainda sofro 
Por teu amor?! 
Não me perguntes! que do inferno a vida 
Não é pior! ... 

Eu! vegetar da terra entre os felizes! 
Que faço aqui? 
Sonhos de amor, de glória, lá se foram 
Atrás de ti! 

A ver se encontro d'esperança um raio 
Olho em redor, 
E nada vejo, e mais profunda sinto 
No peito a dor! 

Que faço aqui? Dias cansados, anos 
Sem fim durar! 
Depois que te perdi, viver ainda, 
Viver! penar! ... 

Eu, não! Quem for feliz que preze a vida, 
Tema perdê-la! 
Por mim não tenho horror, nem tédio à morte, 
Clamo por ela! 

Bendita seja pois a que mandada 
Me for por Deus. 
Matar-me, não; que quero ver-te ainda 
Feliz nos céus! 

Mas no pego da dor, em que me abismo? 
Nesta aflição 
Negra como a do cego que na estrada 
Esmola o pão! 

Como a do viajor que pelas trevas 
Sem tino vai, 
E, errado o trilho, se embrenhou nas matas, 
Nem delas sai! 

Neste viver sofrendo, errante, louco, 
Mísero Jó, 
Que amigos e inimigos à porfia 
Pungem sem dó! 

Às vezes, da amargura no remanso, 
Ao Criador 
Minha alma eleva cânticos de graças, 
Hinos de amor! 

Que se estivesse em mim renascer hoje, 
Sofrer o que sofri... 
Eu quisera viver para ainda amar-te 
E amado ser por ti! 

O Beijo, Francesco Hayez
O Beijo, Francesco HayezArte escolhida pelo tema amor. Domínio público. Ver no Wikimedia Commons