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Prelúdio de um grande amor
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Ainda estavam em minha cabeça os acontecimentos do último 1º de maio. O comício da Sé havia sido um sucesso. Também não poderia ter sido diferente, os trabalhadores ainda não estavam cicatrizados da repressão à grande greve de dezessete.
Descia a rua São Bento a passos largos. Àquela hora da tarde era pouco provável que encontrasse com as pessoas que conviviam comigo. As grandes noites, esticadas até ao amanhecer dos cafés. Belos garotos; pensei. Precisava cortar os gastos. E meu pai esperando a edição de edição do meu livro. Ri gostoso em meio a tantas desgraças. Lembrei que precisava visitar um amigo no mosteiro. Vai acabar com metade da população para depois ir embora. Ouvia-se em todas esquinas. Também não era para menos, até Rodrigues Alves havia morrido por causa dela. A grande guerra se São Paulo, exageravam alguns. Eu preferia, e ainda a chamo, a gripe.
Agora surgia em mim um problema na vista. Enxergava cada vez menos.
A casa Fretin estava vazia àquela hora da manhã. Peguei os meus óculos e desci rumo ao mosteiro. Restavam em mim algumas dúvidas se deveria ou não visitá-lo. Diziam que só se saia dali para os campos da Consolação. E eu com esta eterna mania de Samaritano. Dei três pancadas à porta do mosteiro. Um monge franzino, e com cara de que a alguns anos não dormia, me recebeu. Anunciei que precisava visita um amigo. Lá dentro tudo tinha sido transformado em um hospital: grandes camas-leito; crianças correndo e brincando ao Sol.
Entrei receoso, tinha escapado por pouco da forte gripe do ano passado. Mas não tinha saído ileso. Estava com sinais claros de pneumonia. Avistei em um dos leitos meu amigo, juntamente com alemães; austríacos; italianos e toda sorte nacionalista possível.
- Alberto Dezíderio da Silva Leme.
Olhavam-me como se vissem a própria morte chegando. As pessoas que ali estavam não queriam ser reconhecidas. A doença lhe causava repugnância e raiva por tudo e todos que ali estavam.
Alberto Brito de Sá, ou só Brito como gostava de ser chamado, era um grande orador da turma. Não havia festa ou enterro sem os seus discursos ou os seus poemas. Todos o admiravam. Dos políticos ilustres às meretrizes que lhe flertavam no Café Brandão. Belas mulheres haviam por ali. Lá para os lados da São João também. Mas ali era diferente. Podia-se tudo, bastava desembolsar algum dinheiro. E agora ele ali, em meio a toda aquela gente doente. Logo ele que nadava lá pros lados da ponte grande. Eu que nunca tive fôlego e agora limitado pela pneumonia, preferia assistir as competições bebendo uma cerveja.
- Como vai Brito - perguntei com medo de ouvir a resposta.
- Estou bem, logo mais quero fazer uma grande festa no Brandão com a minha francesinha. Fiquei sabendo que está chegando um número elevado de mulheres. Até polacas. É verdade Silva?
Não respondi sua pergunta. Olhei para o lado e observei a presença de uma jovem enfermeira que caminhava em nossa direção. Vinha passando pelos leitos conversando com todos, ou melhor, sorrindo para todos os doentes. Um sorriso que faria qualquer um se reabilita o mais depressa possível. Deveria ter uns vinte e seis anos. Alta e bela, aproximava-se de nós.
- Que mulher linda - não pude conter a minha impressão momentânea.
- Aqui em meio a tantas desgraças? Impossível Silva.
- A enfermeira - apontei sem me preocupar em ser discreto. Na verdade queria ser notado.
- Você e sua mania de negras. Pensei que tivesse mudado.
Preferi não perder meu precioso instante com o que Brito falava. Admirava-a em excesso. Ela olhou-me com um desdém de quem havia sofrido severas dificuldades em sua vida.
- É perigos ficar por aqui senhor. Noto-lhe que não é nenhum doente e muito menos um trabalhador.
- Mas sou gente com todos aqui - falhei-lhe em um tom brando e sério como costumava falar nos comícios.
- O senhor é quem sabe. Vejo que você está bem melhor Sr. Brito. Logo, logo poderá estar nas ruas.
Voltou-me as costas e continuou seu trajeto entre os leitos. Achei-a maravilhosa.
- Vejo que está caído pela negra - cochichou-me Brito com um ar de deboche.
- Ora, faça-me o favor. Apenas notei que ela é uma mulher interessante. Nada mais, apenas interessante.
Despedi-me de Brito e prometi voltar no dia seguinte. Eu visitava-o a cada semana. Agora prometia estar lá no dia seguinte. Ele riu. Nós dois sabíamos o real motivo de meu interesse repentino pelo doente do Mosteiro de São Bento. Naquele dia não consegui fazer mais nada. Não consegui sequer comprar um novo chapéu na 15 de Novembro. Minha cabeça só pensava na bela enfermeira daquela manhã. Não dormi naquela noite e no dia seguinte cheguei uma hora antes do combinado. Estava ansioso.
- Descobri algumas coisas importantes Silva - disse-me Brito com seu costumeiro ar de mistério. Sempre fazia assim quando arruma garotas para mim.
- Isidora, este é o nome dela. Tem vinte e sete anos é solteira. Sempre que há algo de errado por aqui, e permitem uma mulher entrar, chamam ela. Aprendeu a cuidar de doentes com um padrinho que era médico. Vivia bem na casa dele até que arranjou um filho e foi expulsa. Agora, faz uns sete anos que mora em um quarto pequeno lá pros lados da rua da Glória. É tudo o que sei.
- Onde descobriu tudo isto? Você não...?
- Ora Silva. Parece que não me conhece. Tenho meus contatos. Aqui dentro, tudo se consegue, basta ter algum dinheiro para um bom vinho e um monge amigo. O resto é a natureza humana. Você não queria saber sobre a tal negra, ai está. Agora me dê um abraço.
Abracei-lhe como nunca tinha feito antes. Aproximaria-me dela o mais depressa possível. Sentia também que os meus pulmões não prolongariam muito minha vida, mas queria ter a sensação de poder estar com alguém de novo. Minha família já havia parado de implicar com os meus romances com mulheres negras. Eles sabiam que não corriam o risco de terem um neto mulato, afinal, os meus pulmões não agüentariam muito, como me próprio médico falou aos meus pais. Eles então resolveram dar-me a liberdade da morte. Poderia viver agora tudo o que castrava-me até então.
Caminhava a passos largos pensando agora em voltar a escrever. É estranho como as coisas vão acontecendo em nossas vidas. Pensaria na proposta que o Estado me fizera. Ganharia algum dinheiro cobrindo o futebol de domingo. Não seria mal, já era bem tempo de começar a ganhar dinheiro. Parei no largo da Sé. Morrerei sem ver as torres terminadas. Um cabo da Força Pública pediu-me um cigarro; dei-lhe. Era o último, mas, não me importava queria chegar logo.
O longo corredor que ladeava a casa não me deixava dúvidas, ali era uma entre tantas moradias coletivas que existiam em São Paulo. Brás, Bexiga, Barra Funda, Pari, onde houvesse trabalhadores lá estava ela, a moradia coletiva. Outros preferiam chamá-la de cortiço.
Detive-me ao portão. Uma mulher gorda e com sotaque napolitano execrava uma outra senhora, que não deixava dúvidas quanto a sua origem portuguesa.
- Por favor, sabem onde posso encontrar a Isidora?
A portuguesa sem olhar-me e nem diminuir a discussão apontou para a última porta. Era um corredor estreito e sujo. Havia por ali um eterno ar de insatisfação e medo.
Bati a porta. Um menino de aproximadamente se anos abriu-a e olho assustado.
- Quem é menino?
- Desculpe, eu...
- O que faz aqui? Se veio agradecer pelo seu amigo saiba que não precisava. Não gosto dele. Sei que ele não gosta de negras - falou-me rápido puxando a folha da porta, já entreaberta.
- Não, não vim para agradecer. Sei que parece loucura, mas eu vim aqui para vê-la.
- E porque alguém como o senhor se daria ao trabalho de querer me ver?
Fiquei quieto por alguns instantes. Como poderia dizer para alguém ali naquele cortiço, que um dos filhos de um grande fazendeiro paulista, estava apaixonado por ela. Ela não acreditaria.
- Nem eu - falei em voz alta.
- O que disse? - perguntou-me tentando entender tudo o que estava acontecendo.
- Nada. Não posso falar agora. Me encontre as três no Jardim Botânico, em frente ao observatório. Se não quiser me ver com homem, veja-me apenas como paciente. Te espero.
Saí correndo sem ao menos olhar para trás. Eu que sempre era inseguro agora conseguia falar o que realmente eu desejava. Acho que a doença estava mudando a minha personalidade. Peguei um bonde para a rua São Bento. Morava ali perto na parte superior de um comércio de um amigo de papai. Uma troca de favores. Papai dava-lhe algumas mercadorias mais em conta e com isto ele estava enfadado a me aturar durante o meu curso no Largo São Francisco. Subi os degraus de casa correndo. Precisava ser rápido. Escolhi a minha melhor roupa de passeio. Coloquei os meus óculos novos para parecer mais sério. Sabia que não haveria garantia alguma que ela iria, mas no fundo, existia em mim a certeza que ela iria. Nunca soube o por que, mas às vezes eu tinha estas certezas e as coisas aconteciam. Meus amigos costumavam ficar assustados quando eu falava sobre algo e acabava acontecendo. Para mim funcionava de uma forma mais do que normal. Comeria algo no caminho. Ainda havia tempo faltavam trinta minutos. Peguei um bonde ruma a Estação da Luz. Inexplicavelmente me deu um enorme aperto no meu coração. Era a saudade de meus pais que angustiava-me. De repente peguei-me chorando. Olhei para o anúncio de Biotônico e lembrei do dia que cheguei na cidade. Há quatro anos quando vim estudar em São Paulo, foi a primeira coisa que vi ao entrar em um bonde. Desde então era um leitor assíduo de anúncios nos bondes.
Àquela hora da tarde o Jardim Botânico estava sempre cheio de mamães com suas babás olhando para os carrinhos de bebê.
Não precisei esperar. Lá estava ela defronte ao observatório.
- Obrigado por ter vindo - agradeci ainda ofegante da correria que o dia estava sendo.
- Deixe os agradecimentos para depois. Espero apenas que o senhor tenha um bom motivo para ter feito eu vir até aqui - falou empurrando o menino para brincar ali próximo.
Podia agora com calma observá-la melhor. Era linda. Uma simples e bela mulher. Deveria ter próximo de um metro e setenta e seis de altura. Ela pareceu bem entusiasmada e sorriu. Não há nenhuma única mulher que seja lisonjeada que não sorri.
Não consegui falar-lhe o meu propósito. Entreguei-lhe um papel em que estava escrito sobre minha afeição por ela. O pedi que lê-se apenas em sua casa. Aceitou de bom grado e concordou em caminhar comigo. Falávamos a respeito de tudo como se fossemos velhos conhecidos. Nem parecia aquela mulher que se mostrava tão rígida com os doentes. Contou-me da sua paixão por crianças e que não saberia viver sem o seu filho, que vim saber chamar Tonico, o seu grande confidente.
- Mas você é uma jovem senhora. Deveria pensar em casar-te - falei-lhe com um sorriso sincero no rosto.
- Pensar eu até penso, mas pretendentes é que são poucos. Quem irá de querer uma mulher com um filho, e ainda mais negra.
Notei que escorria uma lágrima em seu rosto. Não estendi mais a conversa. Lembrei apenas que esperaria o retorno do bilhete em dois dias. Nos despedimos.
Não fui ao mosteiro aquele dia, precisava dormir um pouco. A insônia fazia com que eu precisasse dormir durante alguns períodos do dia.
Isidora chegou ao mosteiro sorridente naquela tarde de julho. No trajeto havia lido o conteúdo do bilhete. Resolvera que mostraria a Brito. Não o apreciava é verdade, mas era o único que me conhecia profundamente.
Brito abriu o bilhete e pode perceber a minha letra. A escrita rápida e quase ilegível demonstrava a minha ansiedade:
"Não consigo passar uma noite sem sonhar com você. Espero que me aceite em sua vida".
Brito não pode conter a gargalhada:
- Conheço pelo menos umas vinte mulheres que tem o mesmo bilhete. Não se iluda, ele apenas te deseja. Isto não é amor. A pneumonia o deixou muito solitário e você como enfermeira...
Isidora não pode conter a raiva por mim naquele instante. Como ela poderia ter acreditado em um bilhete. Sim Brito tinha razão, era apenas desejo nada mais, resmungou antes de sair. Já estava no meio da rua quando percebeu que havia esquecido Tonico. Tonico tão acostumado com os carinhos da mãe estava vindo correndo ao seu encontro. Era ele que a consolava em seus problemas. Um grande homem no alto de seus sete anos. O bonde descia costumeiramente a rua São Bento. O motorneiro ficou estático. Os passageiros perceberam o ocorrido.
- Não foi minha culpa, o garoto correu para frente do bonde - gritava o motorneiro.
Isidora voltou-se para ver o que acontecia. Era tarde, o grande amor de sua vida estava ali, embaixo do bonde.
No jornal que ficou caído sobre os trilhos lia-se a data: 5 de julho de 1918.
Isidora saiu em desespero ruma a rua da Glória.
Não sei se os fatos transcritos acima, desde o instante em que me despedi de Isidora no Jardim Botânico são verdadeiros. Mas foi assim que Brito me contou quando fui visitá-lo na manhã seguinte. Fora a última vez que fui visitá-lo. Culpava-lhe pelo o ocorrido, e o tinha agora como um traidor. Ele tinha destruído meu último sonho na vida.
Brito veio a falecer um mês depois. Não fui ao seu enterro. Ainda guardava uma grande mágoa dele.
Isidora às vezes é vista procurando o seu filho em todos os lugares. Já não tem mais casa e não reconhece as pessoas. Quando a vi, não me reconheceu. Sei apenas que consegue conversar normalmente com as crianças, que sempre chama de meu filhinho.
Quanto a mim, parei de trabalhar a algum tempo. A minha doença esta num estágio avançado.
Hoje três meses após a morte de Brito e seis após ter conhecido Isidora, estou morrendo. Sei que estou, apesar do esforço do monge que me visita diariamente, em me dizer o contrário.
Paro o meu texto por alguns segundos; preciso respirar. Parece-me que o ar está cada vez mais escasso. Fico ofegante e peço para o monge me abraçar. Sei que não verei o outro dia. Escrevo agora com a promessa de que meu amigo monge publique meu texto. Hesito. Recomendo-lhe agora que guarde ou jogue fora, apenas não publique. Ele sorriu e perguntou se desejo mais alguma coisa. Respondo-lhe que sim. Peço que abra minha gaveta da escrivaninha. Não há dificuldades em encontrar o que eu desejo. Poderei assim lembrar dela. Dom Ricardo me entrega o que desejava. O Jardim Botânico me vêm a mente. Fecho em minhas mãos a medalha de São Bento que ela me deu naquela tarde. Já não preciso escrever, bastava eu cerrar os olhos para tocá-la.
Ainda estavam em minha cabeça os acontecimentos do último 1º de maio. O comício da Sé havia sido um sucesso. Também não poderia ter sido diferente, os trabalhadores ainda não estavam cicatrizados da repressão à grande greve de dezessete.
Descia a rua São Bento a passos largos. Àquela hora da tarde era pouco provável que encontrasse com as pessoas que conviviam comigo. As grandes noites, esticadas até ao amanhecer dos cafés. Belos garotos; pensei. Precisava cortar os gastos. E meu pai esperando a edição de edição do meu livro. Ri gostoso em meio a tantas desgraças. Lembrei que precisava visitar um amigo no mosteiro. Vai acabar com metade da população para depois ir embora. Ouvia-se em todas esquinas. Também não era para menos, até Rodrigues Alves havia morrido por causa dela. A grande guerra se São Paulo, exageravam alguns. Eu preferia, e ainda a chamo, a gripe.
Agora surgia em mim um problema na vista. Enxergava cada vez menos.
A casa Fretin estava vazia àquela hora da manhã. Peguei os meus óculos e desci rumo ao mosteiro. Restavam em mim algumas dúvidas se deveria ou não visitá-lo. Diziam que só se saia dali para os campos da Consolação. E eu com esta eterna mania de Samaritano. Dei três pancadas à porta do mosteiro. Um monge franzino, e com cara de que a alguns anos não dormia, me recebeu. Anunciei que precisava visita um amigo. Lá dentro tudo tinha sido transformado em um hospital: grandes camas-leito; crianças correndo e brincando ao Sol.
Entrei receoso, tinha escapado por pouco da forte gripe do ano passado. Mas não tinha saído ileso. Estava com sinais claros de pneumonia. Avistei em um dos leitos meu amigo, juntamente com alemães; austríacos; italianos e toda sorte nacionalista possível.
- Alberto Dezíderio da Silva Leme.
Olhavam-me como se vissem a própria morte chegando. As pessoas que ali estavam não queriam ser reconhecidas. A doença lhe causava repugnância e raiva por tudo e todos que ali estavam.
Alberto Brito de Sá, ou só Brito como gostava de ser chamado, era um grande orador da turma. Não havia festa ou enterro sem os seus discursos ou os seus poemas. Todos o admiravam. Dos políticos ilustres às meretrizes que lhe flertavam no Café Brandão. Belas mulheres haviam por ali. Lá para os lados da São João também. Mas ali era diferente. Podia-se tudo, bastava desembolsar algum dinheiro. E agora ele ali, em meio a toda aquela gente doente. Logo ele que nadava lá pros lados da ponte grande. Eu que nunca tive fôlego e agora limitado pela pneumonia, preferia assistir as competições bebendo uma cerveja.
- Como vai Brito - perguntei com medo de ouvir a resposta.
- Estou bem, logo mais quero fazer uma grande festa no Brandão com a minha francesinha. Fiquei sabendo que está chegando um número elevado de mulheres. Até polacas. É verdade Silva?
Não respondi sua pergunta. Olhei para o lado e observei a presença de uma jovem enfermeira que caminhava em nossa direção. Vinha passando pelos leitos conversando com todos, ou melhor, sorrindo para todos os doentes. Um sorriso que faria qualquer um se reabilita o mais depressa possível. Deveria ter uns vinte e seis anos. Alta e bela, aproximava-se de nós.
- Que mulher linda - não pude conter a minha impressão momentânea.
- Aqui em meio a tantas desgraças? Impossível Silva.
- A enfermeira - apontei sem me preocupar em ser discreto. Na verdade queria ser notado.
- Você e sua mania de negras. Pensei que tivesse mudado.
Preferi não perder meu precioso instante com o que Brito falava. Admirava-a em excesso. Ela olhou-me com um desdém de quem havia sofrido severas dificuldades em sua vida.
- É perigos ficar por aqui senhor. Noto-lhe que não é nenhum doente e muito menos um trabalhador.
- Mas sou gente com todos aqui - falhei-lhe em um tom brando e sério como costumava falar nos comícios.
- O senhor é quem sabe. Vejo que você está bem melhor Sr. Brito. Logo, logo poderá estar nas ruas.
Voltou-me as costas e continuou seu trajeto entre os leitos. Achei-a maravilhosa.
- Vejo que está caído pela negra - cochichou-me Brito com um ar de deboche.
- Ora, faça-me o favor. Apenas notei que ela é uma mulher interessante. Nada mais, apenas interessante.
Despedi-me de Brito e prometi voltar no dia seguinte. Eu visitava-o a cada semana. Agora prometia estar lá no dia seguinte. Ele riu. Nós dois sabíamos o real motivo de meu interesse repentino pelo doente do Mosteiro de São Bento. Naquele dia não consegui fazer mais nada. Não consegui sequer comprar um novo chapéu na 15 de Novembro. Minha cabeça só pensava na bela enfermeira daquela manhã. Não dormi naquela noite e no dia seguinte cheguei uma hora antes do combinado. Estava ansioso.
- Descobri algumas coisas importantes Silva - disse-me Brito com seu costumeiro ar de mistério. Sempre fazia assim quando arruma garotas para mim.
- Isidora, este é o nome dela. Tem vinte e sete anos é solteira. Sempre que há algo de errado por aqui, e permitem uma mulher entrar, chamam ela. Aprendeu a cuidar de doentes com um padrinho que era médico. Vivia bem na casa dele até que arranjou um filho e foi expulsa. Agora, faz uns sete anos que mora em um quarto pequeno lá pros lados da rua da Glória. É tudo o que sei.
- Onde descobriu tudo isto? Você não...?
- Ora Silva. Parece que não me conhece. Tenho meus contatos. Aqui dentro, tudo se consegue, basta ter algum dinheiro para um bom vinho e um monge amigo. O resto é a natureza humana. Você não queria saber sobre a tal negra, ai está. Agora me dê um abraço.
Abracei-lhe como nunca tinha feito antes. Aproximaria-me dela o mais depressa possível. Sentia também que os meus pulmões não prolongariam muito minha vida, mas queria ter a sensação de poder estar com alguém de novo. Minha família já havia parado de implicar com os meus romances com mulheres negras. Eles sabiam que não corriam o risco de terem um neto mulato, afinal, os meus pulmões não agüentariam muito, como me próprio médico falou aos meus pais. Eles então resolveram dar-me a liberdade da morte. Poderia viver agora tudo o que castrava-me até então.
Caminhava a passos largos pensando agora em voltar a escrever. É estranho como as coisas vão acontecendo em nossas vidas. Pensaria na proposta que o Estado me fizera. Ganharia algum dinheiro cobrindo o futebol de domingo. Não seria mal, já era bem tempo de começar a ganhar dinheiro. Parei no largo da Sé. Morrerei sem ver as torres terminadas. Um cabo da Força Pública pediu-me um cigarro; dei-lhe. Era o último, mas, não me importava queria chegar logo.
O longo corredor que ladeava a casa não me deixava dúvidas, ali era uma entre tantas moradias coletivas que existiam em São Paulo. Brás, Bexiga, Barra Funda, Pari, onde houvesse trabalhadores lá estava ela, a moradia coletiva. Outros preferiam chamá-la de cortiço.
Detive-me ao portão. Uma mulher gorda e com sotaque napolitano execrava uma outra senhora, que não deixava dúvidas quanto a sua origem portuguesa.
- Por favor, sabem onde posso encontrar a Isidora?
A portuguesa sem olhar-me e nem diminuir a discussão apontou para a última porta. Era um corredor estreito e sujo. Havia por ali um eterno ar de insatisfação e medo.
Bati a porta. Um menino de aproximadamente se anos abriu-a e olho assustado.
- Quem é menino?
- Desculpe, eu...
- O que faz aqui? Se veio agradecer pelo seu amigo saiba que não precisava. Não gosto dele. Sei que ele não gosta de negras - falou-me rápido puxando a folha da porta, já entreaberta.
- Não, não vim para agradecer. Sei que parece loucura, mas eu vim aqui para vê-la.
- E porque alguém como o senhor se daria ao trabalho de querer me ver?
Fiquei quieto por alguns instantes. Como poderia dizer para alguém ali naquele cortiço, que um dos filhos de um grande fazendeiro paulista, estava apaixonado por ela. Ela não acreditaria.
- Nem eu - falei em voz alta.
- O que disse? - perguntou-me tentando entender tudo o que estava acontecendo.
- Nada. Não posso falar agora. Me encontre as três no Jardim Botânico, em frente ao observatório. Se não quiser me ver com homem, veja-me apenas como paciente. Te espero.
Saí correndo sem ao menos olhar para trás. Eu que sempre era inseguro agora conseguia falar o que realmente eu desejava. Acho que a doença estava mudando a minha personalidade. Peguei um bonde para a rua São Bento. Morava ali perto na parte superior de um comércio de um amigo de papai. Uma troca de favores. Papai dava-lhe algumas mercadorias mais em conta e com isto ele estava enfadado a me aturar durante o meu curso no Largo São Francisco. Subi os degraus de casa correndo. Precisava ser rápido. Escolhi a minha melhor roupa de passeio. Coloquei os meus óculos novos para parecer mais sério. Sabia que não haveria garantia alguma que ela iria, mas no fundo, existia em mim a certeza que ela iria. Nunca soube o por que, mas às vezes eu tinha estas certezas e as coisas aconteciam. Meus amigos costumavam ficar assustados quando eu falava sobre algo e acabava acontecendo. Para mim funcionava de uma forma mais do que normal. Comeria algo no caminho. Ainda havia tempo faltavam trinta minutos. Peguei um bonde ruma a Estação da Luz. Inexplicavelmente me deu um enorme aperto no meu coração. Era a saudade de meus pais que angustiava-me. De repente peguei-me chorando. Olhei para o anúncio de Biotônico e lembrei do dia que cheguei na cidade. Há quatro anos quando vim estudar em São Paulo, foi a primeira coisa que vi ao entrar em um bonde. Desde então era um leitor assíduo de anúncios nos bondes.
Àquela hora da tarde o Jardim Botânico estava sempre cheio de mamães com suas babás olhando para os carrinhos de bebê.
Não precisei esperar. Lá estava ela defronte ao observatório.
- Obrigado por ter vindo - agradeci ainda ofegante da correria que o dia estava sendo.
- Deixe os agradecimentos para depois. Espero apenas que o senhor tenha um bom motivo para ter feito eu vir até aqui - falou empurrando o menino para brincar ali próximo.
Podia agora com calma observá-la melhor. Era linda. Uma simples e bela mulher. Deveria ter próximo de um metro e setenta e seis de altura. Ela pareceu bem entusiasmada e sorriu. Não há nenhuma única mulher que seja lisonjeada que não sorri.
Não consegui falar-lhe o meu propósito. Entreguei-lhe um papel em que estava escrito sobre minha afeição por ela. O pedi que lê-se apenas em sua casa. Aceitou de bom grado e concordou em caminhar comigo. Falávamos a respeito de tudo como se fossemos velhos conhecidos. Nem parecia aquela mulher que se mostrava tão rígida com os doentes. Contou-me da sua paixão por crianças e que não saberia viver sem o seu filho, que vim saber chamar Tonico, o seu grande confidente.
- Mas você é uma jovem senhora. Deveria pensar em casar-te - falei-lhe com um sorriso sincero no rosto.
- Pensar eu até penso, mas pretendentes é que são poucos. Quem irá de querer uma mulher com um filho, e ainda mais negra.
Notei que escorria uma lágrima em seu rosto. Não estendi mais a conversa. Lembrei apenas que esperaria o retorno do bilhete em dois dias. Nos despedimos.
Não fui ao mosteiro aquele dia, precisava dormir um pouco. A insônia fazia com que eu precisasse dormir durante alguns períodos do dia.
Isidora chegou ao mosteiro sorridente naquela tarde de julho. No trajeto havia lido o conteúdo do bilhete. Resolvera que mostraria a Brito. Não o apreciava é verdade, mas era o único que me conhecia profundamente.
Brito abriu o bilhete e pode perceber a minha letra. A escrita rápida e quase ilegível demonstrava a minha ansiedade:
"Não consigo passar uma noite sem sonhar com você. Espero que me aceite em sua vida".
Brito não pode conter a gargalhada:
- Conheço pelo menos umas vinte mulheres que tem o mesmo bilhete. Não se iluda, ele apenas te deseja. Isto não é amor. A pneumonia o deixou muito solitário e você como enfermeira...
Isidora não pode conter a raiva por mim naquele instante. Como ela poderia ter acreditado em um bilhete. Sim Brito tinha razão, era apenas desejo nada mais, resmungou antes de sair. Já estava no meio da rua quando percebeu que havia esquecido Tonico. Tonico tão acostumado com os carinhos da mãe estava vindo correndo ao seu encontro. Era ele que a consolava em seus problemas. Um grande homem no alto de seus sete anos. O bonde descia costumeiramente a rua São Bento. O motorneiro ficou estático. Os passageiros perceberam o ocorrido.
- Não foi minha culpa, o garoto correu para frente do bonde - gritava o motorneiro.
Isidora voltou-se para ver o que acontecia. Era tarde, o grande amor de sua vida estava ali, embaixo do bonde.
No jornal que ficou caído sobre os trilhos lia-se a data: 5 de julho de 1918.
Isidora saiu em desespero ruma a rua da Glória.
Não sei se os fatos transcritos acima, desde o instante em que me despedi de Isidora no Jardim Botânico são verdadeiros. Mas foi assim que Brito me contou quando fui visitá-lo na manhã seguinte. Fora a última vez que fui visitá-lo. Culpava-lhe pelo o ocorrido, e o tinha agora como um traidor. Ele tinha destruído meu último sonho na vida.
Brito veio a falecer um mês depois. Não fui ao seu enterro. Ainda guardava uma grande mágoa dele.
Isidora às vezes é vista procurando o seu filho em todos os lugares. Já não tem mais casa e não reconhece as pessoas. Quando a vi, não me reconheceu. Sei apenas que consegue conversar normalmente com as crianças, que sempre chama de meu filhinho.
Quanto a mim, parei de trabalhar a algum tempo. A minha doença esta num estágio avançado.
Hoje três meses após a morte de Brito e seis após ter conhecido Isidora, estou morrendo. Sei que estou, apesar do esforço do monge que me visita diariamente, em me dizer o contrário.
Paro o meu texto por alguns segundos; preciso respirar. Parece-me que o ar está cada vez mais escasso. Fico ofegante e peço para o monge me abraçar. Sei que não verei o outro dia. Escrevo agora com a promessa de que meu amigo monge publique meu texto. Hesito. Recomendo-lhe agora que guarde ou jogue fora, apenas não publique. Ele sorriu e perguntou se desejo mais alguma coisa. Respondo-lhe que sim. Peço que abra minha gaveta da escrivaninha. Não há dificuldades em encontrar o que eu desejo. Poderei assim lembrar dela. Dom Ricardo me entrega o que desejava. O Jardim Botânico me vêm a mente. Fecho em minhas mãos a medalha de São Bento que ela me deu naquela tarde. Já não preciso escrever, bastava eu cerrar os olhos para tocá-la.
De onde veio esta página. Do arquivo index__url_temas_centrais_cronicas_e_textos_166.html.html, recuperado das capturas do Internet Archive. O texto acima é o mesmo, palavra por palavra: só a tipografia mudou.