O Alguém
Ícaro Teinassis
Desde criança a mãe advertia: Estude para ser alguém na vida. No início o estudo foi árduo, penoso, obrigado.
Depois tomou gosto. Tirou o primeiro grau. No dia e, que se formou tentou encontrar em si alguma mudança, afinal de contas, ele já era alguém? Quem sabe, depois do segundo grau ele saberia.
Chegou o dia, formou-se técnico em estradas. Tinha o segundo grau completo e profissão (que não tinha campo). E aí? Já era alguém? Mas ele ainda não via nenhuma mudança. Será que saberia quando chegasse o momento? Não, definitivamente ainda não era, quem sabe na universidade.
Determinado, durante um ano os olhos nos livros e passou no vestibular. De cabeça raspada, mais uma vez ele tentou encontrar algum vestígio de que finalmente era alguém. E nada.
Estudou, se formou, e nada. Como o canudo não lhe garantiu nenhum emprego, decidiu se inscrever num concurso público. Assim o fez, e passou. No dia da comemoração, cego em sua reflexão, não viu que ao passar por uma casa um mendigo o chamou.
- Ô beleza! Ô! Beleza. Puxou-o pelo ombro.
- Ô beleza, filho da puta! Eu existo, tá vendo não? Não quer dar esmola não dê! Mas não me faça de cachorro porque sou gente, sou Alguém!
O rapaz olhou com desprezo e disse:
- Eu que há anos estudo ainda não sou ninguém, quanto mais você!
Irritado o mendigo pegou um caco de vidro perdido no chão e cravou no abdome do homem e correu. O corte foi profundo. Não havia muita gente, mas todos que passaram e o viram sangrando ignoraram sua existência. Ninguém o socorreu, e ele continuou sangrando.
Enquanto dava os últimos suspiros, finalmente ele teve uma resposta para sua pergunta:
"Ele seria um alguém quando deixasse de ignorar um outro alguém"
Ícaro Teinassis
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