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Meu amor pela Internet


Se há alguns meses alguém me dissesse: "Na Internet você vai encontrar o companheiro que sempre procurou e logo estarão vivendo juntos", eu daria risada.

Depois de um casamento e muitos namoros, achava que este homem não existia e descartava a hipótese de uma nova união. Como um ser inexistente poderia se materializar na tela do meu micro? Mas foi exatamente o que aconteceu.

Para mim, que sou jornalista, e para ele, que vem de uma família de escritores e poetas – como saberia mais tarde -, explorar as salas de bate papo da Internet era um mero exercício de imaginação. Uma possibilidade de brincar com as palavras, filosofar, desafiar a criatividade. Naquela noite de maio com o pseudônimo de "Bobina", entrei num grupo de conversa e um nome chamou minha atenção: "Rider-on-the-Storm", que significa caminhante do temporal, título de uma música antiga da banda The Doors. Tive vontade de escrever algo para ele, mas não consegui pensar em nada inteligente. De repente, recebo a mensagem : "Parabéns. Você é a única pessoa a assumir seu nica, o que todos somos atrás de apelidos despretensiosos e originais: bobos". O diálogo que se seguiu fluiu de forma deliciosa. Meia hora depois ele perdeu a conexão e sumiu. Esperei e nada....desliguei o micro certa de que seria muito difícil encontra-lo novamente.

No dia seguinte, entrei na sala e...lá estava ele! Minhas mãos, como as de uma adolescente, começaram a tremer. Veio a primeira mensagem: "Na tua chegada, tomo tuas mãos e repito aquele muito lento beijo..." Parece absurdo, mas nem o melhor dos beijos reais que já ganhei teve efeito semelhante.

Felizes, deixamos a imaginação voar. Durante uns 10 dias, compartilhamos um clima de magia. Em vez de trocar mensagem convencionais, conversávamos como personagens de ficção, que podiam viajar no tempo e no espaço. Num dia, fingíamos estar num salão francês do séc. XVII. No outro, caminhávamos entre os carvalhos da Bretanha ou de uma cabine do Expresso de São Petersburgo. Construímos ate um castelo na areia, de Venice Beach, na Califórnia de 1968. Tudo isso sem saber nossos nomes reais. 

Mas já estávamos apaixonados. Os diálogos entre os personagens haviam revelados tanto sobre nós que começaram a nos provocar taquicardias e insônias. Ele emagreceu e eu mal podia trabalhar. Mas a idéia de ganharmos carne e osso parecia assustadora. O mundo que construímos era perfeito. Cadê coragem para encarar uma realidade que poderia ser decepcionante? 

A realidade despencou como uma pedra na minha cabeça quando, na segunda semana, ele digitou: "Fernando Nogueira, 41 anos, casado a 16, sem filhos, gaúcho de Porto Alegre." Casado! E a 1.109 Km de distancia! Podia ser pior, pensei, driblando a frustração. E se ele tivesse 5 filhos e morasse no Cazaquistão? Prossegui sem comentários: "Ilana Vidal, 35 anos, divorciada, sem filhos, paulistana, namorando a 2 anos e meio". Agora era impossível voltar ao mundo do faz de conta. 

Continuamos a trocar mensagens e o sentimento foi crescendo. Confidenciávamos detalhes de nossas vidas que nunca havíamos revelado a ninguém. Eu já tinha lido sobre a intensidade e a intimidade que os relacionamentos virtuais atingem em pouco tempo. Agora entendo pôr que. A ausência do contato físico torna as pessoas mais autenticas, como se conversassem com seus diários. Fica mais fácil chegar à ausência do outro. A essa altura, coloquei um ponto final no meu namoro. O casamento do Fernando, que já não ia bem, começou a desmoronar. Depois de 3 semanas, passamos a nos falar também pôr telefone, as vezes horas seguidas – a primeira conta foi de exatos R$ 964,36! Nesses papos chegamos a um entrosamento que jamais havíamos tido em outras relações. Pela primeira vez na vida eu me sentia em plena sintonia afetiva, espiritual e mental com um homem. 

Mas os limites do contato telefônico logo se tornaram uma tortura. Era preciso ir além. Decidimos nos encontrar em Belo Horizonte. Foi quando uma noticia me deixou feliz estarrecida: "Terminei meu casamento, não quero aparecer na sua frente pela metade. E não se sinta responsável. Aconteceria cedo ou tarde, com ou sem você na minha vida". Meus olhos se encheram de lágrimas. Essa atitude só confirmou o que eu já sabia: Ele tinha coragem e inteireza de caráter. 

Até quando não pensávamos na hipótese de não existir atração física reciproca. Mas agora... Se a nossa química dissesse "não", viraríamos no máximo, bons amigos. No dia marcado, arrumei a mala e fui para o aeroporto. Tudo parecia tão irreal! O avião estava para decolar quando descobriram um problema que nos obrigou a mudar de aparelho. Tive medo de morrer antes de chegar. Mas ao desembarcar estava calma e feliz. Deixei a bagagem no hotel e fui para a praça onde marcamos o encontro. 

Foi fácil reconhece-lo pôr causa do cachimbo. Sentei no banco ao seu lado, sem dizer nada. Ele virou o rosto na minha direção, entrelaçamos as mãos e ficamos nos olhando, emocionados. A atração foi imediata. Quando me dei conta, meus lábios já tocavam os dele. Foram 3 dias intensos, loucos, lindos, plenos. Conversávamos e brincamos como velhos companheiros. Sabíamos que a despedida seria apenas uma pausa para outro encontro, semanas depois, em São Paulo.

A nova temporada juntos nos deu uma certeza: impossível continuarmos separados. Pôr isso, estou de malas prontas para ir viver com ele. Temos muitos planos. Um deles é concluir o livro Rider & Bobinha – Uma história de Amor ( pela Internet). Pôr sorte, guardei os diálogos na memória do meu micro. Não fazemos idéia do que acontecerá conosco daqui para frente. Mas temos coragem e muita vontade de fazer esse amor dar certo. Só pôr isso, e pôr tudo o que aconteceu até aqui, já terá valido a pena.

Relato de Ilana Vidal - 35 anos - São Paulo.

De onde veio esta página. Do arquivo index__url_interatividade_licoes_de_uma_vida_004.html.html, recuperado das capturas do Internet Archive. O texto acima é o mesmo, palavra por palavra: só a tipografia mudou.

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