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Histórias de Verão II


É importante as pessoas combinarem como se comportarão em determinadas situações sociais, para evitar surpresas. Aconteceu de um casal ser convidado a passar um fim de semana numa casa de campo e chegar ao local sem a menor idéia do que o esperava. A casa era grande e bonita, o lugar era aprazível, mas o homem -- digamos que se chamava João -- teve um pressentimento e deteve a mão da mulher, Maria, antes que ela tocasse a campainha. 

- Espere. Você sabe que nós podemos estar entrando numa história... 

- Como história? 

- Não sabemos nada desta casa e de quem vai estar aí. E se entramos numa história infantil? 

- Que história infantil? 

- Sei lá. Não tem uma da donzela que chega numa casa de ursos e acaba dormindo na cama de um deles? 

- Eu conheço a dos anõezinhos. Branca de Neve. A casa é de sete anões e Branca de Neve fica morando com eles, até que a bruxa bate na porta com uma maçã envenenada. 

- Vamos combinar o seguinte. Você só dorme na cama comigo e, se aparecer um anão propondo qualquer tipo de arranjo doméstico mais prolongado, você dá uma desculpa qualquer. Diz que tem dentista na Segunda. E em hipótese alguma chegue perto da porta, se baterem. 

- Mas, se for a história da Branca de Neve, tem um final feliz. Ela fica com um príncipe. 

- Não chegue perto de nenhum príncipe também. 

- Está bem... Vamos entrar? 

- Espere. Nós podemos estar entrando numa história do Chekhov. 

- Chekhov? 

- Russo. Século 19. Grupo de pessoas reunidas numa mesa de campo durante um fim de semana de verão era com ele. 

- Como vamos fazer para saber se é uma história do Chekhov ou não? 

- Se todos tiverem nomes russos, falarem muito, parecerem não dizer nada, mas irem se revelando aos poucos, é do Chekhov. 

-- Há algum perigo? 

- De maçãs envenenadas, não. Pelo contrário, comeremos muito bem. E, se surgir algum nobre, será certamente decadente e provavelmente impotente. O único risco é sairmos daqui conhecendo mais sobre a condição humana do que precisamos. 

- Então, se estiver muito chato, eu faço um sinal, você diz que se lembrou que deixamos o gás ligado e damos o fora. 

- Combinado. 

- Vamos? 

- Espere. E se estivermos entrando numa história da Agatha Christie? Ela também gostava de grupos heterogêneos em casas de campo, onde havia um crime e todos eram suspeitos. 

- Pode ser um fim de semana excitante. 

- Não se um de nós for a vítima. 

- O que fazemos? 

- Vamos entrar. Se todos tiverem nomes como Nigel ou Milicent, o mordomo parecer culpado demais e estiver faltando um dos ferros da lareira -- não damos desculpa nenhuma e saímos correndo. 

- Certo. Vamos? 

- Espere. Também pode ser uma história do marquês de Sade. 

- Marquês de Sade?! 

- Um grupo de devassos reunidos numa mansão com virgens adolescentes e prostitutas, para rituais de deboche e tortura. 

- Como devemos nos comportar? 

- Valem as mesmas instruções da história infantil. Nada de dormir na cama de outro e não aceite a proposta de nenhum anão. 

- E você fique longe das virgens adolescentes. 

- Já começou a me controlar? 

(O Estado de São Paulo, 25/02/98)
Autor: Luis Fernando Veríssimo

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