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Felicidade de um dia


Naquela manhã eu me sentia renovada. Fazia muito tempo que não me envolvia com um homem tão gentil e sedutor. Carlos não era exatamente bonito, mas a timidez latente que ele tentava contornar com opiniões fortes me fascinava. A gente se conhecera no curso de italiano. Todas as terças e quintas à noite nos sentávamos lado a lado numa cumplicidade muda de trintões, em meio à garotada bagunceira que dominava a classe.

A atração mútua nasceu incentivada pelos exercícios em dupla, pôr seus constantes erros gramaticais que eu as vezes corrigia e pela sutileza com que me fazia perceber meus enganos de pronuncia: repetia devagar e bem baixinho a palavra na qual eu tropeçara, como se estivesse falando consigo mesmo.

Na cama no meu quarto, tentando adiar a hora de me levantar eu pensava no nosso primeiro jantar, nos planos de viajar no próximo feriado e na noite maravilhosa que acabáramos de ter . No motel. Para não invadir a privacidade dos meus filhos.

Mãe, você não vem tomar café com a gente? Ouvi minha filha mais nova perguntando da escada.

Morta de preguiça, quase respondi "não". Mudei de idéia ao lembrar-me do cliente das 11 horas e principalmente, do pacto que mantinha com as crianças desde a separação: o café da manhã em família era sagrado. Três anos depois do divorcio, elas ainda se ressentiam com a ausência cotidiano do pai.

Já vou Catarina – respondi.

Na sala, eles me crivaram de perguntas. Queriam saber se eu tinha arrumado namorado. "Que sono fora de hora é esse mãe?", insistia o Bruno, irritado. Falei que ainda não podia contar nada, mas provoquei meu filho dizendo que seu mau humor não conseguiria me tirar do meu estado de felicidade.

Passei a sexta feira numa alegria indisfarçável. À noite, quando voltei do trabalho e despenquei no sofá para ver o telejornal, ainda pensava nas mãos quentes de Carlos. A voz do repórter me arrancou do êxtase.

"Empresário é assassinado em Campinas. A policia suspeita da esposa ."Soltei um grito de horror. Era ele, o meu Carlos. Eu tremia inconformada com a fatalidade. Sabia de sua separação e da pensão absurda que a mulher estava exigindo.

Carlos passava a maior parte da semana em SP. Morava num flat. Às sextas-feiras ia a Campinas. Minha cabeça rodava tentando imaginar suas ultimas horas de vida. Será que ele também dormira pensando em mim? Teria se atrasado para o trabalho e antecipado a ida a Campinas? Chorei com todas as forças, não tanto a perda do namorado, mas o fim trágico do homem encantador, que amava a vida de um jeito contido mas generoso .

Poupei meus filhos dos detalhes. Disse apenas que ele era um amigo querido e me abasteci nos afagos solidários das crianças. Apenas agora passado um ano da morte de Carlos, consigo contar essa história sem que ela me machuque tanto. Não tenho raiva da mulher dele, declarada culpada de Ter forjado o assalto em que o marido foi baleado. Nem sei se ela esta ou não na cadeia . O tormento que assola um assassino deve ser uma prisão perpetua para qualquer mente que um dia foi sã . espero apenas que, de onde quer que esteja, o Carlos também possa perdoá-la. 

Depoimento de M.L.F., microempresaria, 37 anos de São Paulo

De onde veio esta página. Do arquivo index__url_interatividade_licoes_de_uma_vida_003.html.html, recuperado das capturas do Internet Archive. O texto acima é o mesmo, palavra por palavra: só a tipografia mudou.

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