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Eu sou uma mulher


Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.

Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar 
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.

Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho d´agua escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.

Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ao vento.

O sangue masculino
tinge as armas e o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.

O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia 
a ciranda da fêmea.

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.

Pois há um sangue 
que corre para morte.

E o nosso
que se entrega para Lua.

Autora: Marina Colasanti

De onde veio esta página. Do arquivo index__url_material_poetico_poemas_058.html.html, recuperado das capturas do Internet Archive. O texto acima é o mesmo, palavra por palavra: só a tipografia mudou.

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