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Epigrama


Narciso, foste caluniado pelos homens, 
por teres deixado cair, uma tarde, na água incolor, 
a desfeita grinalda vermelha do teu sorriso. 

Narciso, eu sei que não sorrias para o teu vulto, dentro da onda: 
sorrias para a onda, apenas, que enlouquecera, e que sonhava 
gerar no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso, 

a estátua de cristal que, sobre a tarde, a contemplava, 
florindo-a para sempre, com o seu efêmero sorriso. . . 

Autora: Cecília Meireles

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