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A Noite dos Grilos Dourados


1

- Dê uma rabiscadinha aqui neste canto. 
- Aqui? 
- Não; mais pra cá, perto deste olho. 
- Mas, daí vai ficar parecendo japonês! 
- Não importa. 
- Claro que importa. O desenho é meu. 
- Você tem algo contra japoneses? 
- Não, mas... 
- Viu? Você também tem preconceito. Ontem você me dizia que era um homem aberto. 
- E sou. 
- É nada. 
- Hn... 
- Por que você não responde? 
- Eu não sei bem o que dizer. Tu me pegas em cada cilada... 
- Porque você não pensa direito nas coisas que diz. 
- Claro que penso. Mas, quando estou contigo, perco o vocabulário. 
- Você tem medo de mim? 
- Medo? Ora! Um pouquinho de... Não sei bem o que é. 
- Timidez. 
- Talvez. 
- Pois é. Outro dia você disse que se sentia bem comigo. 
- E me sinto. 
- E a timidez? 
- Não é timidez... 
- Então, o que é? 
- Não sei! Tu estás me enchendo a paciência. Eu não gosto de falar muito. Por isto que escolhi o desenho. 
- Ah! 
- Sim! 
- Desculpe. 
- Tu ficas me forçando... Eu gosto de ti. Silêncio. Lá fora, a chuva. O vento açoitava um cipreste persistentemente. Era uma dessas tardes de guardar segredos nos quartos aconchegantes. Manso júbilo de goteiras vespertinas. 
- Obrigada. Eu também acho você um cara interessante. Haroldo sorriu. 

2

Carta-Bilhete-Telegrama

Prezado Haroldo:

Foda-se a terra! O meu planeta vai durar até o momento da minha morte. E enquanto aqui estou, também você está. Aí o sentido de viver. Eu poderia gostar (e gosto) de outros homens que conheço. Mas, me propus a transformar o meu amor por você num grande acontecimento, porque, afinal de contas, como diz Motaigne, mesmo no mais alto dos tronos senta-se uma bunda. E bunda por bunda eu tenho, tu tens, ele tem. Nós todos temos - e quem não tem é doente.

Eu não ando à cata de um astro. Sou janela aberta por onde entra o sol e também a chuva. Quero você porque você é feito de carne e osso, como eu... E porque você respira, e tem gripe de vez em quando, e porque você peida e ri, e porque de vez em quando se masturba e tosse e canta...

Assim, concluí que vale a pena lutar por você, como valeria a pena lutar por muitas outras pessoas.

Abreijos 
Eu. 

3

- Se você desse um tom esverdeado para os olhos... 
- Por que esverdeados...? 
- Porque ficariam como os seus. Você está pintando um quadro para mim, não é? 
- É... 
- Pois é! 
- Tá bem. Eu dou o verde aqui. 
- Obrigada. Eu vou pensar sempre em você quando olhar o quadro. 
- Não estou fazendo um auto-retrato. 
- O pintor não tem poder de determinar o que o espectador vai ver. 
- Mas... 
- O que? 
- Nada. 
- Diga. 
- Não sei como dizer. 
- A timidez de novo. 
- Não é bem timidez. Tu ficas me cobrando. 
- Porque gosto de você. Acho que posso ter esta liberdade. Posso? 
- Hm... pode. 
- É tão difícil fazer você rir. 
- Eu sou durão. 
- Outro preconceito. 
- Não querer rir é preconceito? 
- Claro! Tem gente que acha o riso coisa de criança. Você sabe... os homens sérios. 
- Eu sou sério. 
- Vai morrer e ser comido pelas minhocas, como eu. 
- Mas, até lá... 
- Você que escolhe. 
- Eu quero ser sério. 
- Pena. 
- Por quê? 
- Você é tão bonito. 
- Eu...? 
- Aos meus olhos, claro. Não sei se todo mundo acha você bonito. Eu acho. Isto que importa. 
- Tu estás brincando. 
- Claro. Mas estou falando sério: o que sinto. 

4

Cantiguinha Dramática para Haroldo

Teu jeito me comove 
meu peito se revolve 
quando estás perto de mim. 
Nem mesmo a noite fria 
e os doidos ais do dia 
me transtornam tanto assim. 
Por ti fico esperando. 
O sol vai descambando 
e a saudade é um pote de ouro. 
Vens e falas e vais... 
Eu sempre quero mais 
um rubi do teu tesouro. 
Mas, ai! 
Tu ficas um pouco 
e te vais. 
Eu cá fico louca 
e jamais 
vou beijar teu corpo. 
Ai, ai. 
Bem quisera ser a fada 
que virasse louva-deus 
pra poder te visitar 
quando à noite tu ficasses 
no teu quarto a cochilar. 
Tu me matarias? 
Adeus! 
Vou banhar-me no luar 
que de prata veste a noite 
despertando almas penadas 
de amores outros, açoites, 
passados pelas sacadas 
ou escondidos nas moitas 
e nas areias do mar. 

Fim da Cantiga Dramática para Haroldo. 

5

- Pronto. 
- Já? 
- Falta só o acabamento. 
- Então faça. 
- Não. Não quero que tu vejas... 
- Por quê? 
- Surpresa. 
- Ora... 
- Tu queres um café? 
- Quero. 
- Vem até a cozinha. 
- Ninguém em casa? 
- Foram todos para a zona das inundações prestar ajuda aos flagelados. 
- Bem. 
- Por quê? Se houvesse alguém em casa tu não virias à cozinha? 
- Não sei. 
- Tu também tens alguma timidez. Faz de conta que a casa é tua. Vem... me dá tua mão. 

6

Página de Diário

7 de Julho. A gente foi até a cozinha e tomou café. Depois, ele me pegou de novo pela mão e me levou para seu quarto. Ele só queria me mostrar seu primeiro cavalete, presente de sua mãe. Daí a gente sentou, ele colocou um disco. Estava quente e ele me perguntou se podia tirar a camisa. 

- Claro que pode, eu disse. Ele tirou. Tem um corpo liso, limpo como uma folha de estrelícia num jardim interno. Tem pêlos, não muitos. O mais bonito dele é a cintura, pra gente passar a mão de levezinho pelo osso ilíaco, deslizando devagar para o umbigo, onde um rastro de pêlos vem traçar um caminho misterioso para os recantos mais profundos do seu corpo. Eu também senti vontade de tirar a roupa, mas era muito abuso de sua confiança. Aí foi que ele disse: Vira pra lá que eu vou me trocar. Eu lhe perguntei porque virar se eu não tinha vergonha dele? Aí ele tirou a calça - não usa cuecas. Parecia, a sua bunda, um desenho como ele tinha feito. Eu só olhei. Daí ele vestiu um calção bem largo e veio sentar-se à minha frente, com as pernas de pêlos finos quase tocando meus pés.

- Tu não estás com calor? 
- Cada vez mais - eu disse. 
- Tira um pouco de roupa. 
- Só se você apagar a luz. 
- Ora... assim não posso te ver - ele disse. 
- Você quer me desenhar? 
- Tu queres posar pra mim? 
- Sem roupa? 
- Se tu quiseres... 
- Bem... se você quer... 

Aí, ele veio bem de mansinho estendendo suas mãos, invadindo os territórios do meu corpo, cariciando minha pele, tirando-me a roupa... E dizia ternamente: Relaxa... Depois, pegou a prancheta e me desenhou. Parecia que seu lápis recontornasse meu corpo, deslizando de mansinho pelos meus cabelos, meus olhos, meus lábios... Eu fiquei bem quase uma hora observando seu rosto concentrado, profundamente mergulhado no desenho, recopiando as formas que a Natureza e a vida me deram. 

Ele tem o rosto longo, as sobrancelhas retas, os olhos grandes e verdes. Parece que está sempre um pouco triste - não sei se triste ou sereno - e quando ri seu semblante se torna um acorde menor, suave como um chorinho. Os lábios são delicados, masculinos, vermelhos... - dá vontade de ficar olhando pra ele quando ele fala, percorrendo o contorno do seu rosto como se fosse o desenho de uma montanha azul. Mas de todo o seu rosto vem do nariz e do queixo um equilíbrio especial - as covinhas que se formam quando ele ri... E dos cabelos vem sempre a lembrança de um tempo - não sei se me lembro de James Dean ou dos primeiros anos de Elvis, ou dos brasileiros de 50. Ele parece não ter um tempo determinado. Sempre que o vejo, pareço sentir que o mundo vai passando devagarinho por trás dele e a gente fica perdida no tempo, no sonho. 

Eu gosto quando perco o pé nas águas em que me banho. Gosto das profundezas perigosas. Gosto do gosto da aventura. E gosto dele porque por mais fundo que nademos, ele não parece perder jamais o pé... 

Agora vou tomar um banho e vou visitá-lo. Vou apanhar o quadro que ele pintou para mim. 


- Ninguém voltou dos vales ainda? 
- Não. A situação pra lá está terrível. 
- Fico numa penumbra só, quando penso nas inundações. 
- Eu também. Não posso fazer muita coisa. Já mandei pão e leite, roupas, dois acolchoados, dez doses de benzetacil... 
- Eu gostaria de estar trabalhando, pra poder ajudar. Meus pais já mandaram muitas coisas. Eu só tinha algumas blusas e sapatos velhos... Tenho pouca roupa. 
- Tu vieste apanhar o quadro? 
- Não só para apanhar o quadro. 
- Para que mais? 
- Pra ficar olhando você... 
- ... 
- Não fique encabulado. A gente não deve ter segredos. Eu gosto tanto demais de você, Haroldo. 
- Fazia tempo que ninguém gostava de mim. 
- Mentiroso. Você que não presta atenção às pessoas. Tem muita gente que fica observando você... 
- É... Acho que tenho medo de encarar as pessoas... 
- Você é egoísta... 
- Tu achas mesmo...? 
- Mesmo, mesmíssimo. Haroldo ficou em silêncio durante um tempo. Depois, foi ao cavalete e descobriu o quadro. 
- Vê. 
- Que beleza... Você mudou alguma coisa. 
- Não. Fiz o acabamento com verniz. 
- Ora! Você mudou qualquer coisa... Estas linhas. Espere! Deixe-me ver de lon... Ah! 
- Pensei que não fosses notar! 
- Você me colocou no quadro! 
- Estás vendo? Adaptei o desenho que fiz de ti ontem. 
- Como ficou bonito... Você já deu um título? 
- Não... 
- Posso dar? 
- Podes. 
- Abraço. 
- Perfeito. 


Bilhete a uma Terceira Pessoa 

Cara amiga: 

Meu amigo pintor deu-me um quadro belíssimo. Eu o pendurei aos pés da minha cama. Chama-se Abraço. Nele parece que a minha mão direita está sustentando seu rosto, como se seus olhos fossem duas relíquias que eu temesse derrubar. 

Há noites em que me deito e contemplo longamente o quadro. Depois, durmo e sonho. A figura dele salta da tela e vem flutuando por sobre minha cama, sorrindo, e deposita as duas esmeraldas dos seus olhos na palma da minha mão. Só com você posso repartir a delícia deste meu sonho persistente. 

Beijos 

Eu. 

- Tu?! 
- Perdão... eu não consegui dormir. 
- Algum problema? 
- Solidão... 
- Entra. 
- Ninguém em casa, ainda? 
- Telefonaram. Voltam depois de amanhã. 
- As águas baixaram... 
- Agora o problema é dos sanitaristas. 
- Parece que as lamas de todas as inundações se depositaram no meu coração... 
- Tu estás com uma cara tão triste... 
- Tenho uma angústia... 
- E esta noite de vento quente dói fundo na gente. 
- Você ouviu o ganido de um cão? 
- É a lua aparecendo... 
- Há estrelas? 
- Vem. Vamos sentar-nos na varanda dos fundos. 
- Entre as samambaias de sua mãe? 
- Sim. Tu bebes vinho? 
- Se você tem... 
- Vem. 

10 

Canção dos Grilos 

Tintilantes íris 
vírides, noturnas... 
Sombras aladas, 
cálidas, soturnas. 
Ai, cão distante, 
coração amante 
de luares mansos... 
Ciciantes sombras 
dúbias, obscuras, 
doces serenatas, 
melodias puras 
(luz dos pirilampos) 
ai, vão pelos campos 
desfiando as almas... 
Etc. 

11 

- Me abrace. 
- Tu tremes! 
- Tenho um sentimento de morte... 
- Estou contigo. 
- Parece que rolei a ribanceira. 
- Estou contigo. Deixa-me beijar-te a testa. 
- Despenhadeiro... 
- Teus cabelos parecem... 
- Cascatas, cataratas, cachoeiras... 
- Te sentes melhor? 
- Como se meu rosto fosse uma furna só. 
- Vem. Deixa-me apertar teu corpo. 
- Por que tenho de estar assim? 
- Reage, vamos! 
- Não posso. 
- Eu te amo... Não te deixes consumir! 
- Ai... 
- Deita-te. 
- Meu corpo se desmancha. 
- Abro os botões, o zíper. 
- Formigam-me os músculos. 
- Tiro-te a blusa... 
- É quente. 
- Por aqui. 
- Não, não adormeço. 
- Tua pele é mansa. 
- Eu já quase não suporto. 
- Mais um pouquinho. As calças... 
- Sensação de vácuo na barriga. 
- Não devia haver roupas. 
- Ah... 
- Apressa-te. 
- Não. Não posso. Vou devagarinho. 
- Olha-me. Respira fundo. 
- Meus dedos na sua pele e eu não sinto você. 
- Desperta! 
- Estremeço. 
- Coragem. 
- Ah, seus lábios... você bafeja no meu rosto... 
- Bebe de mim! 
- Tire sua roupa. 
- Vive de mim! 
- Tire sua roupa... 
- Abraça-me. 
- Sim. 
- Forte. 
- Sim. 
- Mais. 
- Assim? 
- Que bom. 
- Você... 
- Assim? 
- Seus lábios... 
- Delícia. 
- Mais! 
- Mais... 
- Ai! 
- Tu... 
- Ai... 
- Hm... 
Sussurrantes folhas. Cadências de sombras nos bosques secretos da noite profunda. Cricris, cicios, chios, cios, cismas longas, langues... 
- Como gosto de ti... 
- Que bom. 
- ... 
- Você ouviu os grilos? 
- Olha! a lua banhou todo o jardim. 
- Você viu? parece uma raposa... 
- À noite, todos os gatos são pardos. 
- Não nesta noite. 
- Sim. 
- A lua... 
- Hoje os grilos todos são dourados. 
- Eu amo você. 
- Eu também.

Autor: Borges de Garuva

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